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	<title>Irmãs Klink &#187; viagem</title>
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		<title>O Mundo em Poucas Linhas</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 10:18:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
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		<description><![CDATA[-Tamara Escrevo como uma draga come o fundo de um canal. E come um rio, e come um fundo de mar inteiro. É meu tempo que drago ferozmente, ao tatuar meus dias nos maços de papel. Escrevo anos há anos, mesmo sem ter vivido tantos assim. E eu já sei: jamais lerei um quinto do [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">-Tamara</p>
<p>Escrevo como uma draga come o fundo de um canal. E come um rio, e come um fundo de mar inteiro.<br />
É meu tempo que drago ferozmente, ao tatuar meus dias nos maços de papel.<br />
Escrevo anos há anos, mesmo sem ter vivido tantos assim. E eu já sei: jamais lerei um quinto do que escrevi.<br />
Isso porque ao ler o passado eu não me reconheço. E pois não quero admitir que nele eu me vejo demais.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5184"></span><br />
Não suportaria saber que em tantos anos eu erro as mesmas crases, largo incompletas frases, repito as palavras preferidas e tendo a rimar rimas pobres sem razão.<br />
Eu tinha 8 anos quando minha mãe me disse assim:<br />
&#8211; Toma esse caderno em branco e escreva sobre o dia. TODO. DIA.<br />
E eu peguei o elemento de capa verde com glitter e um mini cadeadinho no canto e falei:<br />
-  Tá bom.<br />
Estávamos de férias em um veleiro a caminho da Antártica. E eu queria saber como nadavam os pinguins, se a never ao cair do céu tinha a forma de uma estrela. Eu era criança, mas precisaria orquestrar minhas vontades entre a aventura e a disciplina. Pela primeira vez na vida, eu recebia a missão ingrata de passar uma parte do tempo passando a limpo o que aconteceu. E o fiz. Com os anos, o desafio de escrever virou compromisso, e o compromisso virou um amor sem o qual eu não sei ser.<br />
Enquanto teço este texto que veste meus pensamentos, um painel de botões e números me conta os perigos do oceano. Vencemos onda a onda lentamente, e o vento nos puxa para longe da costa. Poderia durar pra sempre, eu penso, a ação de avançar sem fim. Um dia encerra a noite anterior, o sol nasce sobre a chuva e as nuvens grandes fazem a sombra passear no nosso barco. Mas o painel de instrumentos diz outra coisa: falta muito pra chegar, há pedras submersas no caminho, um navio avança em nossa direção e é tarde. Os números me dizem o que meu corpo não sente: estou há horas demais sem dormir.<br />
Algo me lembra de falar deste momento. Tento me decifrar como os números tentam decifrar o mar. Mas é difícil, pois o diário é um jogo de tradução e omissão. É preciso dar à lembrança o corpo das palavras. É preciso fazer um mundo caber em poucas linhas. E é preciso entregar a precisão ao esquecimento. O caderno tem folhas finitas, o papel pesa na mão, e o minuto descrito dura o mesmo que o minuto de escrever. Se tentássemos guardar tudo, o dia seguinte seria sempre o registrar do dia anterior até<br />
pararmos<br />
no<br />
tempo<br />
.<br />
.<br />
e os pinguins nadarem lá fora, a neve cair, e o dia escorrer como as estrelas de gelo escorrem pelo convés do barco, sem platéia.<br />
Eu me entrego ao desafio de me conter, apesar de saber que não lerei meus diários todos. Mesmo assim, cada um tem seu lugar na estante desse barco. Por déficit habitacional, alguns moram em puxadinhos sobre seus vizinhos. Outros, dormem entre seus pais e avós, bem apertados. Na minha ausência, a estante será o resumo das versões que eu assumi. Acumulo os cadernos de viagem como minha mãe guarda meus desenhos de criança com macarrão cru e massinha de modelar colada. Acumulo na tentativa inútil de conter o tempo. Incontinente.<br />
Enquanto minhas mãos me lembram que faz frio, e meus lábios trazem o sal do mar à boca, eu me dou conta de que o registro não fala do passado; pela sua própria natureza, ele fala de agora. Do que vêm à cabeça quando o sol ressurge atrás dos montes molhados, quando tememos enjoar ao encarar um ponto fixo, e quando estamos em guerra contra a tensão branca do papel. Por isso, não preencho os cadernos para lê-los um dia, preencho por preencher e os guardo como troféus de batalhas vencidas. Cada folha ocupada, um império. Quando estão em pilhas, cada um é diluído entre os semelhantes. Sozinhos, um único pesa mais que todos juntos.<br />
E o escrito mais pesado de todos é o que escrevo agora.<br />
Eu levei todos os textos da minha vida para escrever este. Pois o produto final de cada registro é o próximo registrar.<br />
Escrever diários é difícil por que todo dia tem uma chance de eternidade. E outra chance, ainda maior, de sumir para sempre. Ele pode ser lido por gerações ou pode se perder no caminhão de mudança. E é por isso que acumulamos tanta coisa tosca.<br />
Nunca esqueci uma reportagem da tevê sobre um jabuti reencontrado depois de 30 anos. A família do jabuti acumulou tanta coisa na casa que o animal se escondeu nos objetos e foi da infância para vida adulta sem ser notado. Numa faxina geral, ele foi achado vivo: uma pisadela e um beliscão do passado com presente. Como o texto no miolo dos cadernos de viagem, o bicho dentro da casca tem vida própria e passeia sozinho pelas casas das pessoas que o possuem.<br />
E isso nunca foi claro para mim até começar a publicar meus diários no meu canal do YouTube (youtube.com/TamaraKlink). O novo formato nasceu de um desafio: aprisionar palavras que estavam fora do meu controle. O tom do meu cansaço, do medo, do tédio profundo e da falta de assunto ao navegar. Alguns audios viraram vídeos, e do mar foram parar no ar. Escrevo agora, no invisível.<br />
Escrevo por escrever. Mas preciso admitir que mora em mim uma mini esperança que registrar vai frear o escorrer do tempo. Aqui, minhas preocupações são visíveis: o rumo, as pedras, os outros barcos. Eu estou exausta, e troco horas de sono por horas sonhando acordada. Me sinto sozinha, e converso com as ondas, comigo mesma, com amigos infinitos imaginados. Minha maior vontade é chegar, e meu maior medo é o fim da travessia. Por isso, crio um universo paralelo e controlado. Talvez assim seja possível represar nas minhas mãos o agora, conter cada instante nesta memória, e deixar aberta a porta do ontem pra quando quiser voltar.<br />
Não voltarei.<br />
E ao escrever, esqueço que drago o tempo de dentro pra fora, no canal, no rio, no mar profundo.<br />
Como o som das ondas lambendo o casco, o texto só existe enquanto for ouvido. E se quiser matá-lo, vire essa página. Para sempre.</p>
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		<title>Terra incógnita: Como viver no pior lugar do mundo</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 09:05:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Antártica]]></category>
		<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
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		<description><![CDATA[por Tamara Anúncio no auto falante, diz o capitão do navio: Vento a mais de 90 nós, passadiço interditado até que o tempo melhore, não saiam em hipótese alguma. Outro aviso vem em seguida, a voz do biólogo da tripulação: Pedimos para que os senhores mantenham a luz da cabine desligada para não atrair os [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Anúncio no auto falante, diz o capitão do navio: Vento a mais de 90 nós, passadiço interditado até que o tempo melhore, não saiam em hipótese alguma. Outro aviso vem em seguida, a voz do biólogo da tripulação: Pedimos para que os senhores mantenham a luz da cabine desligada para não atrair os petréis e albatrozes que voam perto da costa. Era tarde já, minhas irmãs e eu estávamos sozinhas na cafeteria montando quebra cabeça. A Europa estava completa, o Oceano Atlântico, o sul da África do Sul.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5130"></span> Faltava a Antártica ainda inteira e tudo abaixo da convergência convergia para um grande e entediante encaixar e desencaixar de pecinhas até que as peças sempre brancas tapassem os buracos vazios. Logo notamos que sobravam poucas peças soltas e eram muitos os espaços a preencher, e, cansadas, fomos para a cabine dormir. Continuamos amanhã, pensei. E deixamos o mundo na mesa meio pronto pra sabe-se lá qual nunca.</p>
<p>A cabine foi acesa pelo sol do dia seguinte. Tentei ver pela janela a paisagem da baía. A vista era censurada por uma neblina espessa, vestindo de noiva a praia de Grytviken. Não precisava ver pra saber: centenas de pinguins nos esperavam. Reis gritavam calorosamente na esperança de que seus filhos reconhecessem sua voz e indicassem a localização do ninho. E nós, meros súditos da natureza austral, esperávamos sua autorização pra desembarcar em terra.</p>
<p>O caminho de bote foi uma linha reta. Cordilheiras abraçavam a piscina de mar onde o navio estava atracado, e, lá na frente, a cidade baleeira se espalhava sobre um altar plano e extenso. Grytviken foi a primeira e mais longeva cidade baleeira da Geórgia do Sul. Construída por noruegueses em 1904, ela foi feita para operar em terra. Dois riachos cortavam o terreno e davam à cidade água doce, energia hidroelétrica e limites, coisas nem sempre fáceis de encontrar.</p>
<p>Chamou minha atenção o tamanho dos tanques de óleo, a distância entre as casinhas e a quantidade de construções. Todas ruínas de um período &#8216;próspero&#8217; e insustentável em que a baleia alimentou a economia das primeiras cidades grandes.</p>
<p>Andar pela cidade era como andar pelo corpo de um gigante. Sua boca era o pátio de esquartejamento. A rampa, logo em frente, era a língua que trazia para terra a carcaça capturada nos navios. Nesse pátio, os baleeiros a mediam, a rasgavam e separavam seus pedaços. Carne na câmara fria, gordura na esteira, mandíbula e barbatana na cozinha de ossos. Desde 1909, com a política do aproveitamento total, todas as suas partes tinham destino garantido. A carne servia para alimentar os habitantes da cidade ou virava ração animal. Os ossos e barbatanas viravam botões, pentes, espartilhos, raquetes de tênis. A gordura era processada para a extração de óleo, e por muitos anos manteve as ruas de Londres e Paris iluminadas.</p>
<p>Para que esse corpo urbano vivesse, era necessária grande mão de obra. Como em um intestino, as habitações dos trabalhadores eram divididas em duas partes. Na primeira ficava alojada a maioria dos baleeiros e trabalhadores, em dormitórios compartilhados. Na outra parte, mais afastada, ficava a casa do gerente da estação e um hotel para visitantes. Esse órgão de moradia tinha seu funcionamento auxiliado por vários outros. Um grande refeitório, um hospital, dentista, igreja, cinema e quadra de futebol. No inverno, tinha também pista de esqui e num rabo, distante da cidade, dormia o cemitério. Havia também acomodações para animais: porcos, renas e galinhas faziam parte do cardápio desses homens.</p>
<p>A vida em Grytviken era tão diferente da minha que por vezes era difícil acreditar que existiu. Minhas mãos ardiam de frio, e eu tinha dificuldade de andar com as botas de borracha tanto tempo. As condições climáticas hostis, entretanto, não impediram que essas pessoas jogassem futebol ou fossem ao cinema, pensei até, talvez ali ainda não fosse o fim do mundo.</p>
<p>Quando as baleias se tornaram poucas. Quando a economia mundial trocou óleo por petróleo. Quando o insustentável virou insuportável. Os baleeiros desligaram as máquinas e saíram de casa acreditando um dia voltar. Talvez quando as baleias voltassem. Nunca voltaram.</p>
<p>Há dez anos, os mais numerosos habitantes dessas casas eram renas e ratos. Hoje são focas de pelo, elefantes marinhos e guias de turismo, que o governo da Geórgia do Sul tenta preservar.</p>
<p><a href="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/P2-na-geórgia1.jpeg" class="lightbox" rel="galeria_5130"><img class="alignnone size-full wp-image-5133" src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/P2-na-geórgia1.jpeg" alt="P2 na geórgia" width="2000" height="1333" /></a></p>
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		<title>Navios são cidades provisórias</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:59:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara Os corredores do navio eram extensões das ruas da cidade. O barco deixava o cais com a dificuldade de uma criança que começa a desmamar. Se da cidade bebeu água limpa, provisões e combustível, agora, feito uma criança grande, partia só e lentamente, sem ter como ser carregado. Em Ushuaia, as ruas e [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Os corredores do navio eram extensões das ruas da cidade. O barco deixava o cais com a dificuldade de uma criança que começa a desmamar. Se da cidade bebeu água limpa, provisões e combustível, agora, feito uma criança grande, partia só e lentamente, sem ter como ser carregado.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5125"></span></p>
<p>Em Ushuaia, as ruas e corredores brotavam do mesmo olho d’água que era o porto. Nele a cidade nasceu e pra ele estava virada inteira. Dos mirantes presos ao barranco, dos degraus das suas calçadas inclinadas, era a vista mais instigante o edifício flutuante. Ele dormia no ancoradouro. Logo eu dormiria nele.</p>
<p>Enfiei meu cartão magnético na fenda leitora de cartões magnéticos e esperei a luzinha verde aparecer pra poder entrar na cabine. Uma fila de pessoas levando malas-tamanho-mudança fazia pressão para eu dar espaço na passagem estreita. Vermelha, vermelha, nada de luz verde, isso tinha que acontecer bem agora! Estacionei nossas malas no corredor e corri em direção à recepção, deixando pra trás um estrangulamento na via principal. Escada ou elevador? Me arrependi de ter escolhido a escada porque eram muitos os andares até lá.</p>
<p>Desci um lance, três, doze e me vi num pátio industrial escuro em frente a botes de borracha, motores desmontados, garrafas de óleos e peças sujas. Para então na minha frente um sujeito vestido com macacão azul e fones anti-qualquer-som-do-planeta e, antes que eu pudesse entender o seu figurino, ouço um som rouco e ensurdecedor que fazia tremer o chão. Gritei em silêncio com os lábios e as mãos “What’s this?” Era o som dos motores ligados. Naquela tarde, era o som da partida.</p>
<p>Subi dois pavimentos e encontrei novamente o carpete azul marinho que gramava os ambientes servidos aos passageiros. Passo por um homem sentado no chão com cara de mar. Uma mulher com um carrinho de bebê vazio falava ao telefone em língua desconhecida. A dupla de homens de colete de moletom e walkie-talkies andava com os olhos sobre pranchetas e desviava de mim, que desviava de um bebê sentado numa piscina de creme de milho na frente da recepção. Pode escanear de novo esse atestado…os dois comprimidos são do dia e à noite são…tenha paciência, é a quinta vez que eu falo…acho que cai o presidente antes da final…Miss. Miss. Is there anything I can help you with? A chave! Peguei a tal, desviei do bebê e voltei a derivar pela malha acarpetada do navio.</p>
<p>No terço da frente do barco estavam os espaços comuns. No restaurante, no café, no bar, nos sofás de ficar observando o mar, pessoas liquidificavam suas histórias de tempos e lugares variados. Era completamente diferente da zona exclusivamente residencial dos quartos. Fria, vazia e sem graça, ela esta era acessada por um corredor central que parecia um longo túnel de portas. Nele, estavam as três malinhas e, em posse da chave certa, enfiei-me na cabine com elas todas.</p>
<p>Fechei a porta dos 10 metros quadrados com banheiro incluso. Sentei no sofá-cama-prateleira-porta imã de geladeira e fiquei pensando em como tornaria aquela caixa estéril um refúgio pra três pessoas. A luz do sol argentino desenhava no carpete azul a forma circular da esquadria. A minha irmã pisou no desenho do chão sem vê-lo e gritou para irmos ver a desatracação.</p>
<p>Corremos pelo corredor perimetral aberto e vimos no cais os moços que soltavam cabos que soltavam o porto, tornando a extensão da cidade uma cidade em si. Ao deixar a plataforma, o navio se tornara provedor da própria infraestrutura. Água, energia e comida deviam ser geridas ou produzidas a bordo, numa temporária e aparente autossuficiência.</p>
<p>Começou a escurecer do lado de fora e dentro de mim. No vento salgado, eu assistia as luzes de Ushuaia se “miudecerem” na saída do canal até até. Ouvia o estalo melado da sucção das ondas lambendo o casco, e as vozes abafadas por música, por distância e por paredes com várias camadas. O nosso embalo era suave apenas enquanto estivéssemos abrigados. Éramos uma casquinha de noz no oceano.</p>
<p>Entrei para tomar sorvete com sabor de letras grudadas norueguesas e cobertura de dulce de leche. Pensei que não importava se estávamos no mar báltico, no cabo da boa esperança ou nos canais chilenos. Poderíamos estar em qualquer um deles: as barreiras entre os lugares eram a capacidade do barco de existir sozinho e a vontade do capitão de nos conduzir.</p>
<p>Os navios são cidades provisórias, que deslocam e são deslocados por pedaços de outras cidades. A elas confinam, a elas recriam aos moldes das conversas com suas escalas. Dormi na cabine, que não parecia mais ser tão pequena. No meio do mar, cabia um mundo inteiro.</p>
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		<title>Terra incógnita: a construção da cidade industrial na Geórgia do Sul</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:51:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara Até hoje é estranha a história desse lugar. Quem o descobriu? Quem ali viveu? De quem foi a ideia estúpida de usar uma cadeia de montanhas pontudas, distante de qualquer coisa e emersa nas mais piores condições climáticas possíveis, para criar grandes cidades industriais? E por ser tão improvável a ocupação humana na [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Até hoje é estranha a história desse lugar. Quem o descobriu? Quem ali viveu? De quem foi a ideia estúpida de usar uma cadeia de montanhas pontudas, distante de qualquer coisa e emersa nas mais piores condições climáticas possíveis, para criar grandes cidades industriais?
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5110"></span></p>
<p>E por ser tão improvável a ocupação humana na Geórgia do Sul, sua história é breve e simples.</p>
<p>Teria sido encontrada em 1675. Um navio que ia do Chile para Londres foi carregado por tempestades durante vários dias, até se aproximar de uma porção de terra não cartografada. O comandante Antoine de la Roché não desembarcou. Permaneceu ancorado duas semanas e prosseguiu a viagem. Sem.Mais.</p>
<p>Oitenta e um anos depois, mais um navio chega lá por acidente. Os ventos e correntes do Cabo Horn fizeram o Espanhol <em>Léon</em> mudar radicalmente sua rota. Passou perto e partiu, também, sem pisar em terra.</p>
<p>Só em 1775 alguém mais ou menos intencionalmente a encontraria. O inglês James Cook já havia feito a primeira circum-navegação do planeta quando foi enviado pelo Rei George III para aquela que seria a primeira Expedição Antártica. Queria encontrar a Terra Incógnita, uma grande massa de continente que, segundo Aristoteles (e depois Ptolomeu), faria o contrapeso das massas de terra encontradas no hemisfério norte do globo. Um dos dois navios da expedição, o <em>Resolution</em>, consegue chegar à região e a batiza com o nome do patrocinador da viagem. O que Cook não esperava, entretanto, era que o continente que havia encontrado fosse tão pequeno. Costeia a Geórgia, faz desembarques e dá nome a várias baías até chegar ao ponto mais austral e perceber que não estava na Antártica, mas em um fiapo de terra que era o arquipélago. Desconcernado, nomeia o extremo sul da Geórgia de Cape Disappointment. E volta para a Inglaterra com o comunicado do fracasso e a conclusão de que o lugar, hostil como era, não possuía potencial econômico algum.</p>
<p>Logo a costa da Geórgia estaria coalhada de foqueiros. Animados pela ideia de dobrar a temporada de caças que faziam no norte, e com menos concorrência, eles caçaram as focas de pelo até o quase extermínio da população. Mais tarde, caçariam elefantes marinhos. Foi um período de sucesso para os foqueiros. Trabalhavam ali por meses. Mas, na cadeia de montanhas expostas constantemente a tempestades e ventos catabáticos, parecia impossível permanecer. E, muito menos, na Georgia do Sul fazer cidade.</p>
<p>Isso só aconteceria em 1904. A caça às baleias é proibida na costa de Finnmark, e os Noruegueses começam a explorar o hemisfério Sul. O capitão e baleeiro C.A. Larsen vai até a baía de Grytviken e escolhe construir ali as primeiras instalações de uma nova indústria baleeira. Outras cinco indústrias surgiriam nos anos seguintes (Leith Harbour — 1910; Ocean Harbour/atual Fortuna Bay — 1909; Husvik Harbour — 1907; Stromness Harbour — 1907; Prince Olav — 1911). Essas estações passariam por várias ondas de sucesso e fracasso, mas não cabe nesse texto tratar delas a fundo posto que o leitor, na tela do celular ou computador, provavelmente não terá oxigênio para mergulhar num texto de grandes profundidades. (Se eu estiver errada, leitor(a), comente)</p>
<p>Mas, para encurtar a história, pularemos para os últimos capítulos do declínio da caça na Georgia, em que as últimas estações sobreviventes, Grytviken e Leith, param de funcionar. E só. Em 1963 e 1964, os noruegueses desligam as fábricas, fecham as janelas, trancam as portas das casas e vão embora, deixando pra trás as cidades baleeias com a certeza de que as baleias jamais voltariam a ser a gasolina da humanidade.</p>
<p>Na última vez que estive em Grytviken, ainda podíamos entrar nas casas dos baleeiros. Andei com meus pais em um antigo galpão de processamento e tiramos uma foto ao lado de um dos tambores de armazenamento de óleo, que tinha a altura de um prédio de dez andares. As casas, meio sem porta, os tambores de aço carcomidos pelos ventos, pela neve, pelo tempo. E tudo que conseguia pensar era: como alguém conseguiu viver aqui?</p>
<p>É o tema do meu próximo texto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Bibliografia e Referências:</p>
<p><strong>Basberg</strong>, Bjorn L. THE SHORE WHALING STATIONS AT SOUTH GEORGIA — A STUDY IN THE ANTARCTIC INDUSTRIAL ARCHAEOLOGY. Novus Forlag. Oslo, 2004.</p>
<p><strong>Burton</strong>, Robet. SOUTH GEORGIA. The Commissioner, South Georgia and The South Sandwich Islands, 2a edição, Towcester, 2005.</p>
<p><strong>Strange</strong>, Ian J. A FIELD GUIDE TO THE WILDLIFE OF THE FALKAND ISLANDS AND SOUTH GEORGIA. Harper Collings, 1a edição. Londres, 1992.</p>
<p><a href="http://www.gov.gs/">http://www.gov.gs</a> — site oficial do Governo da Geórgia do Sul e Ilhas Sandwich do Sul mantido pelo Governo Britânico</p>
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		<title>Cedo ou tarde, vamos ter que admitir: o pó existe</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:48:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara No carro há mil horas. Marininha já me provocava se espalhando pelo banco de trás, a linha de frente da coxa avançando sobre o risco divisório entre o campo do meu banco e campo do banco dela. Eu não levantaria a voz tão cedo. Foi minha ideia fazer a família atravessar a Namíbia [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>No carro há mil horas. Marininha já me provocava se espalhando pelo banco de trás, a linha de frente da coxa avançando sobre o risco divisório entre o campo do meu banco e campo do banco dela. Eu não levantaria a voz tão cedo. Foi minha ideia fazer a família atravessar a Namíbia de carro. A Laura dormia profundamente com a bochecha esquerda enterrada no vidro e o pé esquerdo na minha perna direita. Aguenta. Mais um pouco e chegaremos a algum lugar com gente.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5107"></span></p>
<p>Bonita, mas a vista cansava a vista. Enquanto a centopéia do nosso trajeto crescia na tela do GPS, a paisagem mudava quase nada. Era como navegar num oceano congelado de tão lento. As dunas do deserto da Namíbia, ondas imensas de cor laranja-incêndio. Nosso carro, um barco microscópico sem chance de mudar o rumo. Um caminhão, um antílope, uma placa de proibido-parar-zona-de-diamantes, só. A cabeça da centopéia começou a quase tocar a moldura da tela, e vimos saliências ortogonais e formas reconhecíveis nascentes da areia. Casas pequenas e casas grandes, telhados pra neve da Alemanha, pra cobrir pessoas da Alemanha e interesses da Alemanha em explorar diamantes no início do século passado.</p>
<div class="mceMediaCreditOuterTemp alignnone"><img class="size-medium wp-image-1153" src="http://www.esquina.net.br/wp-content/uploads/2018/01/janela-1-of-1-3-551x413.jpg" alt="" width="551" height="413" /></div>
<p>Saímos da clausura do carro pra andar pela cidade imersa no infinito. Ondas de areia lavaram portas e janelas de Kolmanskop. Tomou celeiros, quartos e salas de baile. Encheu banheiras onde europeus tomaram banho até esvaziarem das dunas os preciosos motivos de estar ali. Antes deles, apenas povos nômades moravam na areia. A imagem de dessa cidade responde por quê: o perigo de navegar em tempestade é querer parar o barco em ondas que se movem. As dunas se movem.</p>
<p>Deve ser isso que pensa o faxineiro do museuzinho de Kolmanskop, que hoje recebe visitantes entusiasmados. Obrigado a combater a natureza com uma vassoura e uma pá, ele nega o quanto pode que a cidade é mais fraca que o mundo. Mas olha ao seu redor e sabe: cedo ou tarde, teremos que admitir que o pó existe.</p>
<p>Voltei pro carro com areia nas fendas do tênis, conformada a me encaixotar por mais uma hora entre minhas irmãs. Só é possível cruzar o deserto em poucos dias se formos mais coisa e menos gente. Nos acostumamos a cercar lugares de paredes, cercar espaços de paredes, cercar corpos de corpos e de paredes, e a graça de cruzar linhas imaginárias e, incrível, voltar a vê-las e saber que, diante dos gigantes, paredes insistem.</p>
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		<title>O centro histórico de Paraty é o palco de um teatro sem fundo</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:46:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara E é nesse teatro que certa parte da cidade ganha pão, pois vende pão (e circo) pra platéia de inglês, francês, paulistano, carioca, e assim por diante. Patrimônio aham, preservadas as fachadas dos prédios do centro e um certo tanto do seu conteúdo. As gentes, essas sim, as gentes que ali moravam já [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div class="media-credit-container alignnone" style="text-align: right;">por Tamara</div>
<p>E é nesse teatro que certa parte da cidade ganha pão, pois vende pão (e circo) pra platéia de inglês, francês, paulistano, carioca, e assim por diante. Patrimônio aham, preservadas as fachadas dos prédios do centro e um certo tanto do seu conteúdo. As gentes, essas sim, as gentes que ali moravam já não se sabe que fim têm levado —  diz com nostalgia quem morou na rua do comércio, naquela de janela azul e verde, na corrente, na rua do mercadinho.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5104"></span>Ou se mora pra viver, ou se trabalha pra manter a casa tombada que custa uma fortuna. O centro esvazia no inverno. E isso nem é especial de Paraty: a gente sabe que nas nossas cidades de praia, só tem casa nos lugares descolados quem não trabalha alí. E estou mais que ciente de que componho a leva de habitantes fantasma que só aparecem nos feriados.</p>
<p>“É muito turista e a cidade não comporta”  — quem nunca pensou nisso que faça o primeiro comentário hater — pode ser uma fala elitista diante do custo relativamente baixo para passar um fim de semana num lugar paradisíaco. Mas é uma fala que tem um certo sentido já que a maior parte da cidade não tem tratamento de esgoto. Nas marés mais altas, a água do mar ainda invade as ruas do centro e carrega lixo pro mar, aquele lixo urbano que a gente conhece bem. Não há sistema de tratamento de esgoto e, em alguns lugares, o lençol freático é tão alto que construir fossa séptica não é opção. Culpa dos moradores jogar esgoto no rio? No mar? No lençol freático? Não, penso que não. Mas vou confessar aqui que também não sei de quem é. Chuto que é o poder público, mas vai saber o que isso quer dizer.</p>
<p>E talvez os turistas (eu, inclusive) e moradores até se contenham com um cheirinho ruim aqui, umas tartarugas sufocadas de plástico ali. Mas difícil ignorar aquele constante friozinho na barriga ao passar por uma rua vazia e mal iluminada sabendo dos dados do Mapa da Violência de 2016. A gente acha que a situação no Rio está grave com 13,1 homicídios para cada 100 mil habitantes. Pois bem, a cidade Paraty, constantemente lembrada como pacata e bonitinha está saindo dessa com 60,9 homicídios para cada 100 mil. Mas que coisa. Culpa das drogas, segundo as pessoas. Algumas que até consomem drogas. “Mas a droga que eu uso é mais suave, não é esse tipo tal”. Tá, tá, tá, prossigamos.</p>
<p>E se vamos falar de perigo, que tal lembrar dos célebres passeios de saveiro de dois andares que saem lotados do pontão todos os dias de sol? Não é necessário ter aulas de engenharia naval para saber que quando a gente transfere o peso de um joão bobo do pé pra cabeça, ele vira. Cinquenta reais/pessoa/dia vezes quantas pessoas couber em quantos andares for possível construir. Sugiro que se juntem a mim numa oração coletiva pra que nunca apareça um golfinho.<br />
“Falta educação”. Falta educação. “Falta investimento”. Não entendo de orçamento público, mas é uma hipótese a estudar. “Falta cultura”. Falta sim, cultura, mas mais que a nossa cultura de cinema cult de cidade grande, música clássica e literatura de prêmio Nobel uma vez por ano, faltam instrumentos pra quem quer, fazer a cultura própria da pessoa. E falta cultura ser um caminho que enobrece, enriquece ou, pelo menos, se sustenta. E não um caminho mais duro e mais difícil do que a própria vida já é. Mesmo assim, junta um daqui, um dali, a caixa de som emprestada, a bateria do primo, a câmera do celular, o estaleiro que virou nada e pronto. Fazem sim. É procurar pra achar.<br />
Minha paixão verdadeira é barco. Mas não vou falar das canoas tradicionais de Paraty, dos remos, que isso é coisa que já sumiu faz um tempo e pouca gente notou. Mesmo assim, parecem estar na água soluções para alguns problemas. As marinas crescem em número e porte, e empregam dezenas de pessoas competentes e excelentes. Também vem do mar peixes e frutos que fazem a gastronomia da cidade autêntica. São potências. Nem todo futuro é turvo, mas para alcançá-las, é preciso responder questões:</p>
<p>O que é preservar a fachada do centro histórico se as pessoas não são preservadas? Se a paisagem não é preservada? Se a cultura some das ruas e o esgoto surge no rio? O que quer dizer Patrimônio, onde há medo?</p>
<p>Chega mais um novo ano, mais sete ondas pra muito mudar. A peça está rolando e a coxia não da conta de esconder os contra-regras. A cena e o cenário não combinam e estão passando outra demão de cal. Tem quem atua, quem assiste, quem vende pipoca e quem tem uma ideia melhor. E você? Quer assistir o quê?</p>
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		<title>Por que Vitória detesta o Tubarão?</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:43:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara Quanto vale estar numa cidade e poder ver o céu tocando o mar? Quanto vale abrir a janela e deixar entrar em casa o vento do oceano? Quanto vale acordar e respirar ar limpo? O grito dos remadores me acordou. Era 7 da manhã, e nosso veleiro estava ancorado em frente ao Iate [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Quanto vale estar numa cidade e poder ver o céu tocando o mar? Quanto vale abrir a janela e deixar entrar em casa o vento do oceano? Quanto vale acordar e respirar ar limpo?</p>
<p>O grito dos remadores me acordou. Era 7 da manhã, e nosso veleiro estava ancorado em frente ao Iate Clube do Espírito Santo. </p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5101"></span> Saí, pra ver as equipes de canoa havaiana, os windsurfs, os outros veleiros envolta do nosso. Eu moraria nesse lugar, pensei, ingênua.</p>
<p>Vitória me intrigou. Linda como poucas, mora perto do continente e é vizinha do oceano. Praias de água quente, calçadões pra passear, montanhas. Mas, ao andar, meus pés limpos estamparam pegadas pretas no chão. Partículas de um pó preto se espalhavam pelo barco. Impregnadas na cobertura, na vela, na janela. Dentro do pulmão. Passei a manter as janelas sempre fechadas, como fazem todos os capixabas pra controlar a sujeira que vem pelo ar.</p>
<p>Como outras cidades do Brasil, Vitória sofre as consequências da nossa estratégia econômica de exportação de minério bruto. De cara pra cidade está o Porto Tubarão, onde chegam navios de carvão e de onde saem, todo dia, parte dos maiores carregamentos de minério de ferro do mundo. Pedaços geográficos do nosso país. Partículas de minério e carvão vestem a cidade com um manto escuro. No mar, são comidas por moluscos. Comidos por pessoas. Pela gente.</p>
<p>As chaminés ardentes da mineradora redesenham o horizonte. Braços do complexo portuário, esteiras, navios, preparados pra levar embora a riqueza mineral do nosso país. Com o minério, China, Europa, Japão, compram não apenas matéria prima: compram de nós a qualidade do ar, compram o vento nas casas, compram a vista, perdida.</p>
<p>Difícil estimar os benefícios do Porto pra Vitória. Empregos são gerados, decerto. Mas essa atividade cada vez menos precisa de mão de obra humana, e cada vez mais contrata pessoas especializadas sem que elas, necessariamente, morem ali. Além disso, minério acaba, um dia. Gera recursos financeiros pra gestão pública? Pode ser. Mas quanto recurso é necessário pra compensar o bem estar e a saúde das pessoas que moram no lugar?</p>
<p>Deixarei nessa cidade perguntas sem resposta.</p>
<p>Amanhã, nossa âncora será suspensa. Por último, vou levar nosso lixo pra terra, trazer água doce, frutas frescas, e sairemos daqui olhando só pra frente. Como fazem os grandes navios, partirei, carregando apenas o que a cidade teve de melhor. Enquanto tiver.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Desvendar Parafusos</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Oct 2016 22:58:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara Tinha um vão entre o costado do paratii2 e a draga à qual estávamos atracados. Pulei o vão e corri para a draga feito um macaco pra dar o último abraço nos meus pais, Irmas e nossas amigas, Cris e Tamara, que em silêncio já sabiam desde o começo, na nossa chegada à [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="graf graf--p graf--leading" style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p id="a7ed" class="graf graf--p graf--leading">Tinha um vão entre o costado do paratii2 e a draga à qual estávamos atracados. Pulei o vão e corri para a draga feito um macaco pra dar o último abraço nos meus pais, Irmas e nossas amigas, Cris e Tamara, que em silêncio já sabiam desde o começo, na nossa chegada à Abrolhos, que aquilo iria acontecer.</p>
<p id="444b" class="graf graf--p graf-after--p">Olhei pras caras do Rafael e do Danilo esperando a indicação de que sairíamos. Motores ligados, toda a tripulação (de 3) no convés em silêncio. “Tem que ter o feeling”, disse o segundo.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5038"></span></p>
<p id="c1e9" class="graf graf--p graf-after--p">Que raios de feeling, meu Deus? O de ter desfeito compromissos, rasgado a passagem de volta e ver partir o grupo de pessoas com quem eu vim — sem mim?</p>
<p id="40f8" class="graf graf--p graf-after--p">Na primeira vez que, com voz quase infantil, pedi pra minha mãe pra ficar no barco até Paraty, ela disse “A gente veio junto e volta junto”. — Eu não tive a menor chance contra a sabedoria irrefutável dessa ideia fixa. No dia 23 de outubro, às 10 da manhã, segurei as alças da minha mochila vermelha para conduzi-la até a van que nos levaria ao aeroporto de Rodrigo de Freitas. Muito a contragosto, enfiei no pé o tênis e sentei pra amarrar os cadarços. Fiz questão de ser a primeira a estar pronta e a ultima a sair, como sempre — talvez só pra provocar. Vi quando minha mãe sentou ao meu lado, já com tudo no carro, e perguntou “Tem certeza que quer ficar?”</p>
<p id="9144" class="graf graf--p graf-after--p">Tive a sensação de que um cinto sufocava a boca do meu estômago.</p>
<p id="e91e" class="graf graf--p graf-after--p">Estrangulei minha euforia. Mentalmente tracei uma estratégia, fiz ligações para desmarcar compromissos indesmarcáveis e pesei as perdas acadêmicas causadas pela minha ausência. Tinha medo de responder — no fundo, ela ensaiava, pelas minhas ideias, sua confiança.</p>
<p id="e7d6" class="graf graf--p graf-after--p">O feeling. Agora eu era oficialmente um dos 3 que soltavam os cabos de atracação. Meus pés, já novamente descalços, eram empurrados pela reação da força peso do meu corpo correndo pelo EVA do convés — O mesmo convés em que 7 anos antes brincava com minhas irmas com neve austral. Aquele Drake foi a última longa travessia que fiz ali, e agora corria atrás dos cabos e do tempo pra compensar sonhados anos de navegação não consumados.</p>
<p id="11d2" class="graf graf--p graf-after--p">Nos afastamos do cais e eu vi que não tinha a menor chance de retorno. Ajudei o Rafael a subir as velas assim que deixamos o canal de Caravelas — eu meio envergonhada por não saber a função de cada cabo que puxei. Com força. Pulei pra dentro do barco pela gaiuta e limpei a cozinha o melhor e mais rápido que pude, pra ter tempo de perguntar pros outros 2 o porquê de cada coisa. <em class="markup--em markup--p-em">Qual a contribuição relativa das velas? Por que não abrir as genoas? Qual a relação da profundidade com o tamanho das ondas? Por que varia o som dos motores? E quando acabam os problemas — a gente faz o quê?</em></p>
<p id="5018" class="graf graf--p graf-after--p">Torci secretamente pra surgirem novos pepinos que me deixassem assistir sua solução. E não tenho do que reclamar: participei da tentativa malograda de tirar a genoa da proa — que, por não sair, acabou nos dando meio nó de velocidade a mais, vi o monitoramento de um vazamento de diesel que logo foi resolvido com a troca de todos os canos, entendi como esvaziar o porão da casa de máquinas que tinha de água, e acompanhei o djibe louco que estourou o preventer depois de uma quase colisão frontal com um navio babaca que não quis mudar de rumo apesar da nossa insistente sinalização e evidente preferência.</p>
<p id="7ae5" class="graf graf--p graf-after--p">Se a princípio eu não tinha turnos noturnos, acabei tapando vários buracos quando dos meus colegas exaustos — por vezes por mais de 4 horas na madrugada.</p>
<p id="c283" class="graf graf--p graf-after--p">Não conseguia mesmo dormir. Nem de noite, quando via a lua minguante com quem queria se casar o rato da música que cantei com a Marininha no dia anterior. Cansei de comer tapioca, pensando nas missões frustradas mas nunca inconclusas, que eu e a Laura cumprimos de acertar a forma da massa.</p>
<p id="6a3b" class="graf graf--p graf-after--p">Arrisquei um diário em video, pra de algum jeito conversar com minha mãe sobre os sucessos da viagem e levar ela pra dentro do barco. E, depois de dobrarmos as esquina em cabo frio, passarmos pela Ponta da Joatinga, e eu ficar encarregada da roda do leme até a Ilha da Bexiga, ainda estava lá.</p>
<p id="eb75" class="graf graf--p graf-after--p"><strong class="markup--strong markup--p-strong">A gente veio junto e volta junto. </strong>O barco da minha vida tem o meu pai em cada parafuso. Todo clique fotográfico é um preito à nossa cultura familiar de fazer registros — e o diário de cada um tem um pouco de todo mundo.</p>
<p id="5120" class="graf graf--p graf-after--p">Ao chegarmos à marina do engenho, ajudei a esticar os cabos sobre o cunho — e não foram os mesmos os pés que saltaram o vão entre a popa do barco e o flutuante. Se tem muito [muito] chão pra eu desvendar as razões de ser do Paratii2, ao menos agora eu sei que posso fazê-lo. Obrigada, pais — se sou criança nas vontades mas não nos compromissos, prometo tornar-los testemunhas de que consigo fazer o vão entre meus sonhos e o mundo terreno</p>
<p id="3ea9" class="graf graf--p graf-after--p">mais pequeno.</p>
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		<title>Entre Formigas</title>
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		<pubDate>Wed, 31 Aug 2016 23:57:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[ruínas maias]]></category>
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		<description><![CDATA[- Laura Dez amigos, seis nacionalidades. Todos em uma pequena van, com destino à Tikal, um sítio arqueológico de ruínas e pirâmides maias. Partimos de San Miguel Escobar pelas 3 da manhã e cambaleando de sono, tornamo-nos zumbis. A viagem  soava como um teste para pessoas ansiosas; seriam 14 horas de resistência. Meta do dia: [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="p1" style="text-align: right;">- Laura</p>
<p class="p1"><span class="s1">Dez amigos, seis nacionalidades. Todos em uma pequena van, com destino à Tikal, um sítio arqueológico de ruínas e pirâmides maias. Partimos de San Miguel Escobar pelas 3 da manhã e cambaleando de sono, tornamo-nos zumbis. A viagem<span class="Apple-converted-space">  </span>soava como um teste para pessoas ansiosas; seriam 14 horas de resistência. Meta do dia: chegar no parque antes das 5 da tarde. Kit de bordo: uma garrafa d’agua e um saquinho plástico para eventuais descartes ou indigestões alimentares. De um dormitório temporário, a<span class="Apple-converted-space">  </span>tripulação da pequena e vermelha vã foi ganhando ânimo ao nascer do sol, assim como os relances na janela, em diferentes tons de verde.</span></p>
<p><span id="more-4986"></span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Em uma corrida contra o tempo, fomos vencedores, chegamos dentro do horário estipulado. Já dentro do <i>camping</i>, todos se permitiram deitar nas redes. Optei pela escolha mais <i>roots</i> e dei um prévio aviso de que dormiria no chão de concreto. Estiquei meu <i>sleeping bag </i>e comecei a admirar o céu<i>. </i>Sem luz elétrica, éramos iluminados apenas pela luz da lua.<i> </i>Por alguns minutos tive a doce ilusão de conforto. </span></p>
<p class="p1"><span class="s1"> Sem que percebesse, a natureza de menor dimensão foi delicadamente avançando sobre o território, afinal de contas, nós havíamos tomado o delas. Peguei uma lanterna. Ao passo em que iluminava o chão, pontos e mais pontos pretos ambulantes cruzavam o feixe de luz, como um céu terrestre. Mal imaginaria que disputava aquela fração de solo e atrativa moradia, com tantas formigas, (enormes formigas) que camuflavam-se meio a concreto, sombras e aranhas. </span></p>
<p class="p1"><span class="s1">- Me rendi à rede -</span></p>
<p class="p1"><span class="s1"> A duração da viagem de carro &#8211; que para alguns soa como enclausuramento &#8211; o cardápio &#8211; que faria com que qualquer nutricionista se desiludisse com a profissão &#8211; ou a estadia ao ar livre &#8211; a qual provavelmente não seria classificada como a melhor &#8211; trouxeram vida ás páginas de meu diário.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1"> Há aqueles que dizem que a companhia transforma o lugar, nada mais certo para mim. As longas horas no carro, viram minutos; as comidas industrializadas, um banquete gourmet e as formigas, imperceptíveis. Seja sua própria companhia ou a de outras duas, dez, vinte pessoas, se “as regras básicas de convivência” entram em consentimento e a motivação de todos é constante, a alegria permeará o solo em que pisamos. Sorte é estar com as pessoas certas, e por certas não quero dizer perfeitas. Quando as<span class="Apple-converted-space">  </span>diferenças convergem em um mesmo ponto no globo terrestre, a viagem ganha sabor(es), certas vezes mais para azedo, doce ou salgado, mas o ganha. O perfeito é saber viver as imperfeições da vida alegremente, afinal de contas, são essas imperfeições que rendem as melhores histórias.</span></p>
<a href="http://www.irmasklink.com.br/categorias/diario-de-bordo/" class="submit submitTheme" title="GOSTOU? AQUI TEM MAIS">GOSTOU? AQUI TEM MAIS</a>
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		<title>Aos berros</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Aug 2016 23:33:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
		<category><![CDATA[Pantanal]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Mato Grosso do Sul]]></category>
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		<description><![CDATA[- Tamara Uma das grandes frustrações da minha vida é não saber tocar um instrumento. Nem um. Mentira, eu aprendi com meu pai a tocar berrante &#8211; não sei se conta como instrumento porque é algo que se leva duas semanas pra aprender a tirar alguma coisa, não mais &#8211; e também porque nunca vi [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">- Tamara</p>
<p>Uma das grandes frustrações da minha vida é não saber tocar um instrumento. Nem um. Mentira, eu aprendi com meu pai a tocar berrante &#8211; não sei se conta como instrumento porque é algo que se leva duas semanas pra aprender a tirar alguma coisa, não mais &#8211; e também porque nunca vi tocar berrante no municipal, na Sala São Paulo, em show de bandas da moda nem nada &#8211; mas eu diria que faz um som bonito e combina com música &#8211; que é uma forma de teletransporte.<span id="more-4982"></span></p>
<p>Nem Deus sabe quantos amores e desilusões eu já vivi nesta vida de casa-onibus-escola. Meia culpa do <i>pop</i> que só fala disso e meia culpa de mim que critico orrores (com o mesmo, pra ficar pior) mas só me desloco ouvindo <i>pop</i>. Cabe ao berrante dar a dignidade que uma vida pasteurizada suplica &#8211; aquele sabor de estranheza, de capim, carandá e porteira, de um doce de abóbora que você tinha certeza que seria de um sabor mas quando enfiou na boca não era bem, mas era.</p>
<p>Acho que meus amigos não sabem que eu toco isso &#8211; tirando aqueles que me viram tocar num sarau da escola, no dia em que me senti tão pressionada por fazer aquilo na frente de todo mundo que não consegui fazer o sopro durar mais que 3 segundos. Mas vou te contar que eu quase faria isso da vida, supondo que eu fosse ilha.</p>
<p>Pensando bem, faltou eu dizer o que um berrante é; é um negócio lindo, cê tem que ver, feito de chifres de boi um juntado no outro por uma tira latitudinal de couro, numa ordem que começa com diâmetro pequeno &#8211; pra por a boca &#8211; e termina grande &#8211; de onde sai um som bem bonito que o pessoal da fazenda usa pra dar sinais e chamar o gado e o gado vem na hora, porque também gosta do som que faz. Acho.</p>
<p>Será que pra fazer isso eles cortam o chifre do bicho vivo? Não deve ser. Mas engraçado que se chama o boi com partes do corpo dele próprio. Quer dizer, não se chama, se berra. Taí a lindeza da coisa que ferve por existir e arranca o ar de quem a pari: ele só funciona com devoção.</p>
<p>Talvez berrante não seja mesmo instrumento por isso: ele serve pra alguma coisa. E talvez seja melhor assim, pra que não se afaste da sua matriz, que é o bicho, e da sua indissociável relação com o contexto de quem dele tira serviço. De qualquer forma, sendo instrumento musical ou não, é arte. E isso, bem ou mal, eu sei tocar.</p>
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