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	<title>Irmãs Klink &#187; iceberg</title>
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		<title>Navios são cidades provisórias</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:59:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara Os corredores do navio eram extensões das ruas da cidade. O barco deixava o cais com a dificuldade de uma criança que começa a desmamar. Se da cidade bebeu água limpa, provisões e combustível, agora, feito uma criança grande, partia só e lentamente, sem ter como ser carregado. Em Ushuaia, as ruas e [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Os corredores do navio eram extensões das ruas da cidade. O barco deixava o cais com a dificuldade de uma criança que começa a desmamar. Se da cidade bebeu água limpa, provisões e combustível, agora, feito uma criança grande, partia só e lentamente, sem ter como ser carregado.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5125"></span></p>
<p>Em Ushuaia, as ruas e corredores brotavam do mesmo olho d’água que era o porto. Nele a cidade nasceu e pra ele estava virada inteira. Dos mirantes presos ao barranco, dos degraus das suas calçadas inclinadas, era a vista mais instigante o edifício flutuante. Ele dormia no ancoradouro. Logo eu dormiria nele.</p>
<p>Enfiei meu cartão magnético na fenda leitora de cartões magnéticos e esperei a luzinha verde aparecer pra poder entrar na cabine. Uma fila de pessoas levando malas-tamanho-mudança fazia pressão para eu dar espaço na passagem estreita. Vermelha, vermelha, nada de luz verde, isso tinha que acontecer bem agora! Estacionei nossas malas no corredor e corri em direção à recepção, deixando pra trás um estrangulamento na via principal. Escada ou elevador? Me arrependi de ter escolhido a escada porque eram muitos os andares até lá.</p>
<p>Desci um lance, três, doze e me vi num pátio industrial escuro em frente a botes de borracha, motores desmontados, garrafas de óleos e peças sujas. Para então na minha frente um sujeito vestido com macacão azul e fones anti-qualquer-som-do-planeta e, antes que eu pudesse entender o seu figurino, ouço um som rouco e ensurdecedor que fazia tremer o chão. Gritei em silêncio com os lábios e as mãos “What’s this?” Era o som dos motores ligados. Naquela tarde, era o som da partida.</p>
<p>Subi dois pavimentos e encontrei novamente o carpete azul marinho que gramava os ambientes servidos aos passageiros. Passo por um homem sentado no chão com cara de mar. Uma mulher com um carrinho de bebê vazio falava ao telefone em língua desconhecida. A dupla de homens de colete de moletom e walkie-talkies andava com os olhos sobre pranchetas e desviava de mim, que desviava de um bebê sentado numa piscina de creme de milho na frente da recepção. Pode escanear de novo esse atestado…os dois comprimidos são do dia e à noite são…tenha paciência, é a quinta vez que eu falo…acho que cai o presidente antes da final…Miss. Miss. Is there anything I can help you with? A chave! Peguei a tal, desviei do bebê e voltei a derivar pela malha acarpetada do navio.</p>
<p>No terço da frente do barco estavam os espaços comuns. No restaurante, no café, no bar, nos sofás de ficar observando o mar, pessoas liquidificavam suas histórias de tempos e lugares variados. Era completamente diferente da zona exclusivamente residencial dos quartos. Fria, vazia e sem graça, ela esta era acessada por um corredor central que parecia um longo túnel de portas. Nele, estavam as três malinhas e, em posse da chave certa, enfiei-me na cabine com elas todas.</p>
<p>Fechei a porta dos 10 metros quadrados com banheiro incluso. Sentei no sofá-cama-prateleira-porta imã de geladeira e fiquei pensando em como tornaria aquela caixa estéril um refúgio pra três pessoas. A luz do sol argentino desenhava no carpete azul a forma circular da esquadria. A minha irmã pisou no desenho do chão sem vê-lo e gritou para irmos ver a desatracação.</p>
<p>Corremos pelo corredor perimetral aberto e vimos no cais os moços que soltavam cabos que soltavam o porto, tornando a extensão da cidade uma cidade em si. Ao deixar a plataforma, o navio se tornara provedor da própria infraestrutura. Água, energia e comida deviam ser geridas ou produzidas a bordo, numa temporária e aparente autossuficiência.</p>
<p>Começou a escurecer do lado de fora e dentro de mim. No vento salgado, eu assistia as luzes de Ushuaia se “miudecerem” na saída do canal até até. Ouvia o estalo melado da sucção das ondas lambendo o casco, e as vozes abafadas por música, por distância e por paredes com várias camadas. O nosso embalo era suave apenas enquanto estivéssemos abrigados. Éramos uma casquinha de noz no oceano.</p>
<p>Entrei para tomar sorvete com sabor de letras grudadas norueguesas e cobertura de dulce de leche. Pensei que não importava se estávamos no mar báltico, no cabo da boa esperança ou nos canais chilenos. Poderíamos estar em qualquer um deles: as barreiras entre os lugares eram a capacidade do barco de existir sozinho e a vontade do capitão de nos conduzir.</p>
<p>Os navios são cidades provisórias, que deslocam e são deslocados por pedaços de outras cidades. A elas confinam, a elas recriam aos moldes das conversas com suas escalas. Dormi na cabine, que não parecia mais ser tão pequena. No meio do mar, cabia um mundo inteiro.</p>
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		<title>Sublimação intransponível</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Apr 2016 17:07:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[- Tamara Pra onde o Pacífico e o Atlântico pelo Sul conversam, damos o nome de Drake. O encontro, no veleiro, é medido em dias: 7, na vela, ou 3, no motor. Prefiro chamar de conversa do que de discussão. Às vezes, os dois oceanos brigam como pais e filhos falando de política. São dias [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="p1" style="text-align: right;">- Tamara</p>
<p>Pra onde o Pacífico e o Atlântico pelo Sul conversam, damos o nome de Drake. O encontro, no veleiro, é medido em dias: 7, na vela, ou 3, no motor.</p>
<p>Prefiro chamar de conversa do que de discussão. Às vezes, os dois oceanos brigam como pais e filhos falando de política. São dias de cama e jejum, sem sair nem pra ir ao banheiro.  Outras vezes, os oceanos falam de música, de arte, de café. Nesse caso, o mar vira azeite, o barco quase não mexe e parece que nem saímos dos canais chilenos.</p>
<p class="p1"><span id="more-4935"></span></p>
<p>Quando éramos menores, nós três (e a Gigi, nossa amiga) forrávamos a sola da bota com papel toalha, e aproveitávamos o balanço pra escorregar pelo compensado naval do salão. Se caíamos no buraco da cozinha tinha chororô de 5 minutos até escorregarmos outra vez. Meu calcanhar de Aquiles era (e ainda é) sentir aquele cheiro de diesel sufocante, amargo e opaco vindo do aquecedor da cozinha. Tanto medo tinha do cheiro que não saía na cabine de comando nem pra domir. Não era boba: lá dava pra ver o mar e conversar com quem fazia o turno da vez.</p>
<p>No estreito de Drake se intensifica a rigidez, o agrupamento e a ordenação fixa dentro do barco. Como moléculas de água no estado sólido, não saímos muito do lugar. Quando as ondas crescem, quebramos o grupo em pedaços e não nos vemos por dias. Já se o mar acalma, ficamos fisicamente conectados no sofá da cabine de comando.</p>
<p>Raramente navegamos sozinhos. Petréis e albatrozes nos acompanham, voando sem parar. Uns com outros, fazemos piadas, contamos histórias, trocamos dicas anti-enjoo [&#8220;olha o horizonte&#8221;, &#8220;come maçã&#8221;, &#8220;toma remédio&#8221;, &#8220;deita&#8221;, &#8220;põe pra fora&#8221; (é o que mais resolve)] e apostamos quem vê o primeiro <i>iceberg</i>.</p>
<p>De certa forma, o Drake ajudou a preservar a Antártica: se fosse fácil chegar, não teria levado tanto tempo para se confirmar a existência de um &#8220;Anti-Ártico&#8221; no Sul da Terra. Não seria tão intocado, desconhecido.</p>
<p>Também não seria tamanha a alegria de estar lá: Destinos alcançados sem barreiras têm graça efêmera.</p>
<p>Lá está o <i>iceberg</i>. Primeiro sinal de uma enxurrada de maravilhas que vêm à tona: pinguins acompanhando o veleiro, focas de <i>weddel</i> em pedaços de gelo, montanhas (Terra!), e às vezes, baleias. Ocupamos toda a área disponível a bordo: tem festa na cozinha, correria no convés, penteado de cabos no salão, concerto de equipamento na garagem, e planejamentos de toda ordem em todo o lugar. Somos livres pelo espaço.</p>
<p>A presença do primeiro iceberg é o ponto que separa o estado mais rígido do mais volátil da viagem. E, por isso, essa mudança é tão sentida. Precisamos provar a dor pra, nas coisas belas, ver o sublime.</p>
<a href="http://www.irmasklink.com.br/categorias/diario-de-bordo/" class="submit submitTheme" title="GOSTOU? AQUI TEM MAIS">GOSTOU? AQUI TEM MAIS</a>
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