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	<title>Irmãs Klink &#187; arte</title>
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		<title>Capuccinos e Condomínios</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:56:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
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		<description><![CDATA[&#160; por Tamara O certo seria ter levado a chave pra disfarçar o fingimento. Mas com duas batidinhas na quina da dobradiça e uma empurrada torta na maçaneta, a porta trancada se abriu. Olhei em volta, acenei para o guarda da rua e entrei na casa da minha avó pontualmente 15 minutos atrasada. Suas amigas [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>O certo seria ter levado a chave pra disfarçar o fingimento. Mas com duas batidinhas na quina da dobradiça e uma empurrada torta na maçaneta, a porta trancada se abriu. Olhei em volta, acenei para o guarda da rua e entrei na casa da minha avó pontualmente 15 minutos atrasada.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5114"></span></p>
<p>Suas amigas já estavam à mesa, rodeando pães, bolos, xícaras estampadas e coisas que uma avó poria sobre uma mesa ao preparar um encontro para amigas. Oi oi oi, sim, passa rápido, obrigada. Puxei a quarta cadeira e fui envolvida pela discussão. Ela disse que vai me levar pra Itu, pra eu morar num… a senhora, que vamos chamar de I.T., hesitou … numa espécie de condomínio.</p>
<p>Minha avó deu risada. Ela cortava a quina de um sachê individual de cappuccino com uma tesourinha que era guardada dentro do pote de sachês individuais de cappuccino. Interrompeu o procedimento e ergueu os olhos. E o que você respondeu?</p>
<p>I.T.: Disse que pra lá eu só ia no caixão.</p>
<p>Minha avó cortou o riso. Disse H.F.: É mesmo uma questão delicada. Que Deus me perdoe, mas parece que numa certa idade tudo que as filhas querem é mandar a mãe para um depósito de velhinhas em um feudo bucólico longe de São Paulo.</p>
<p>I.T.: A Carmem ficou tentando me convencer… Disse que lá eu também ia poder ir à missa porque dentro do condomínio tem igreja que dá pra ir à pé, que tem um mercado ótimo, e que eu ia fazer amigas porque um grupo de senhoras se reúne diariamente pra conversar, caminhar e fazer atividades. Para eu não me preocupar, que sozinha eu não ficava, muito pelo contrário, e que lá eu ia ter tudo igual, só que melhor e com segurança. Mas não é isso, entendem? É alguma outra coisa que falta.</p>
<p>H.F.: Ai ai, IT. De que adianta ter tudo e não ter ninguém? De que vale morar numa casa linda com jardim, piscina e vista sem ter história ali? Ave Maria, isso me lembra a casa da Marisa em Ubatuba. Toda chique, de arquiteto famoso, disse que agora, no fim da vida, que estava usufruindo do sonho. Foi ela ficar dois meses na casa que entrou em depressão. Nem sei que fim levou, coitada. Mas não adianta. O arquiteto bambambam pode fazer milagre, ela pode morar perto de tudo e fazer mercado à pé, pode ter vista, ouvir passarinho, uma maravilha. Mas, no fim da vida, tudo que a gente quer não dá pra construir, Meu Deus. São nossos cantinhos e nossas migalhas. Pode passar uma fatia fininha do bolo, queridinha? Desse não, o de côco é sua avó que gosta, o meu é o Formigueiro.</p>
<p>Cortei a fatia mais fina que pude. Percebendo a minha dificuldade I.T. falou pra mim baixinho: “Ela pede a fatia fina só pra poder repetir várias vezes”. Minha avó trouxe da cozinha um bolo com recheio e cobertura, certa de que ele animaria o encontro. Arquitetura das camadas construíveis, do des-acaso que pretende-se criador de acasos. Não era isso que falavam elas. Não era o bolo, a questão, mas os quatro furos que assinalavam a passagem de um garfo pra checar o cozimento. Afinal, os espaços de transição não são autores da travessia, os espaços de convite não dão a festa, a preservação dos prédios não preserva a saudade, decerto. Pois que, para elas, o morar não era o edifício, o programa ou qualquer coisa projetável dessa instância. Era, sim, outra coisa: algo entre a porta que se vê trancada e o segredo de quem fez os seus segredos, algo entre o prazer de tomar o cappuccino e a mania de guardar sachês no mesmo pote que a tesoura. Eu não tinha, por sinal, tomado o meu, e frio ele não era igual a quente. Mas tinha um outro gosto e um outro calor, calor de encontrar-se a se encontrar no repente de uma mini festinha no fim de tarde de uma quinta-feira qualquer.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Daqui-sets.jpg" class="lightbox" rel="galeria_5114"><img class="alignnone size-medium wp-image-5116" src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Daqui-sets-300x103.jpg" alt="Daqui sets" width="300" height="103" /></a>   <a href="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Daqui-sets4.jpg" class="lightbox" rel="galeria_5114"><img class="alignnone size-medium wp-image-5119" src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Daqui-sets4-300x103.jpg" alt="Daqui sets4" width="300" height="103" /><img class="alignnone size-medium wp-image-5118" src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Daqui-sets3-300x103.jpg" alt="Daqui sets3" width="300" height="103" /><img class="alignnone size-medium wp-image-5117" src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Daqui-sets2-300x103.jpg" alt="Daqui sets2" width="300" height="103" /></a></p>
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		<title>Aos berros</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Aug 2016 23:33:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
		<category><![CDATA[Pantanal]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Mato Grosso do Sul]]></category>
		<category><![CDATA[viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[- Tamara Uma das grandes frustrações da minha vida é não saber tocar um instrumento. Nem um. Mentira, eu aprendi com meu pai a tocar berrante &#8211; não sei se conta como instrumento porque é algo que se leva duas semanas pra aprender a tirar alguma coisa, não mais &#8211; e também porque nunca vi [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">- Tamara</p>
<p>Uma das grandes frustrações da minha vida é não saber tocar um instrumento. Nem um. Mentira, eu aprendi com meu pai a tocar berrante &#8211; não sei se conta como instrumento porque é algo que se leva duas semanas pra aprender a tirar alguma coisa, não mais &#8211; e também porque nunca vi tocar berrante no municipal, na Sala São Paulo, em show de bandas da moda nem nada &#8211; mas eu diria que faz um som bonito e combina com música &#8211; que é uma forma de teletransporte.<span id="more-4982"></span></p>
<p>Nem Deus sabe quantos amores e desilusões eu já vivi nesta vida de casa-onibus-escola. Meia culpa do <i>pop</i> que só fala disso e meia culpa de mim que critico orrores (com o mesmo, pra ficar pior) mas só me desloco ouvindo <i>pop</i>. Cabe ao berrante dar a dignidade que uma vida pasteurizada suplica &#8211; aquele sabor de estranheza, de capim, carandá e porteira, de um doce de abóbora que você tinha certeza que seria de um sabor mas quando enfiou na boca não era bem, mas era.</p>
<p>Acho que meus amigos não sabem que eu toco isso &#8211; tirando aqueles que me viram tocar num sarau da escola, no dia em que me senti tão pressionada por fazer aquilo na frente de todo mundo que não consegui fazer o sopro durar mais que 3 segundos. Mas vou te contar que eu quase faria isso da vida, supondo que eu fosse ilha.</p>
<p>Pensando bem, faltou eu dizer o que um berrante é; é um negócio lindo, cê tem que ver, feito de chifres de boi um juntado no outro por uma tira latitudinal de couro, numa ordem que começa com diâmetro pequeno &#8211; pra por a boca &#8211; e termina grande &#8211; de onde sai um som bem bonito que o pessoal da fazenda usa pra dar sinais e chamar o gado e o gado vem na hora, porque também gosta do som que faz. Acho.</p>
<p>Será que pra fazer isso eles cortam o chifre do bicho vivo? Não deve ser. Mas engraçado que se chama o boi com partes do corpo dele próprio. Quer dizer, não se chama, se berra. Taí a lindeza da coisa que ferve por existir e arranca o ar de quem a pari: ele só funciona com devoção.</p>
<p>Talvez berrante não seja mesmo instrumento por isso: ele serve pra alguma coisa. E talvez seja melhor assim, pra que não se afaste da sua matriz, que é o bicho, e da sua indissociável relação com o contexto de quem dele tira serviço. De qualquer forma, sendo instrumento musical ou não, é arte. E isso, bem ou mal, eu sei tocar.</p>
<a href="http://www.irmasklink.com.br/categorias/diario-de-bordo/" class="submit submitTheme" title="GOSTOU? AQUI TEM MAIS">GOSTOU? AQUI TEM MAIS</a>
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