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	<title>Irmãs Klink &#187; animais</title>
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		<title>Terra incógnita: Como viver no pior lugar do mundo</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 09:05:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Anúncio no auto falante, diz o capitão do navio: Vento a mais de 90 nós, passadiço interditado até que o tempo melhore, não saiam em hipótese alguma. Outro aviso vem em seguida, a voz do biólogo da tripulação: Pedimos para que os senhores mantenham a luz da cabine desligada para não atrair os petréis e albatrozes que voam perto da costa. Era tarde já, minhas irmãs e eu estávamos sozinhas na cafeteria montando quebra cabeça. A Europa estava completa, o Oceano Atlântico, o sul da África do Sul.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5130"></span> Faltava a Antártica ainda inteira e tudo abaixo da convergência convergia para um grande e entediante encaixar e desencaixar de pecinhas até que as peças sempre brancas tapassem os buracos vazios. Logo notamos que sobravam poucas peças soltas e eram muitos os espaços a preencher, e, cansadas, fomos para a cabine dormir. Continuamos amanhã, pensei. E deixamos o mundo na mesa meio pronto pra sabe-se lá qual nunca.</p>
<p>A cabine foi acesa pelo sol do dia seguinte. Tentei ver pela janela a paisagem da baía. A vista era censurada por uma neblina espessa, vestindo de noiva a praia de Grytviken. Não precisava ver pra saber: centenas de pinguins nos esperavam. Reis gritavam calorosamente na esperança de que seus filhos reconhecessem sua voz e indicassem a localização do ninho. E nós, meros súditos da natureza austral, esperávamos sua autorização pra desembarcar em terra.</p>
<p>O caminho de bote foi uma linha reta. Cordilheiras abraçavam a piscina de mar onde o navio estava atracado, e, lá na frente, a cidade baleeira se espalhava sobre um altar plano e extenso. Grytviken foi a primeira e mais longeva cidade baleeira da Geórgia do Sul. Construída por noruegueses em 1904, ela foi feita para operar em terra. Dois riachos cortavam o terreno e davam à cidade água doce, energia hidroelétrica e limites, coisas nem sempre fáceis de encontrar.</p>
<p>Chamou minha atenção o tamanho dos tanques de óleo, a distância entre as casinhas e a quantidade de construções. Todas ruínas de um período &#8216;próspero&#8217; e insustentável em que a baleia alimentou a economia das primeiras cidades grandes.</p>
<p>Andar pela cidade era como andar pelo corpo de um gigante. Sua boca era o pátio de esquartejamento. A rampa, logo em frente, era a língua que trazia para terra a carcaça capturada nos navios. Nesse pátio, os baleeiros a mediam, a rasgavam e separavam seus pedaços. Carne na câmara fria, gordura na esteira, mandíbula e barbatana na cozinha de ossos. Desde 1909, com a política do aproveitamento total, todas as suas partes tinham destino garantido. A carne servia para alimentar os habitantes da cidade ou virava ração animal. Os ossos e barbatanas viravam botões, pentes, espartilhos, raquetes de tênis. A gordura era processada para a extração de óleo, e por muitos anos manteve as ruas de Londres e Paris iluminadas.</p>
<p>Para que esse corpo urbano vivesse, era necessária grande mão de obra. Como em um intestino, as habitações dos trabalhadores eram divididas em duas partes. Na primeira ficava alojada a maioria dos baleeiros e trabalhadores, em dormitórios compartilhados. Na outra parte, mais afastada, ficava a casa do gerente da estação e um hotel para visitantes. Esse órgão de moradia tinha seu funcionamento auxiliado por vários outros. Um grande refeitório, um hospital, dentista, igreja, cinema e quadra de futebol. No inverno, tinha também pista de esqui e num rabo, distante da cidade, dormia o cemitério. Havia também acomodações para animais: porcos, renas e galinhas faziam parte do cardápio desses homens.</p>
<p>A vida em Grytviken era tão diferente da minha que por vezes era difícil acreditar que existiu. Minhas mãos ardiam de frio, e eu tinha dificuldade de andar com as botas de borracha tanto tempo. As condições climáticas hostis, entretanto, não impediram que essas pessoas jogassem futebol ou fossem ao cinema, pensei até, talvez ali ainda não fosse o fim do mundo.</p>
<p>Quando as baleias se tornaram poucas. Quando a economia mundial trocou óleo por petróleo. Quando o insustentável virou insuportável. Os baleeiros desligaram as máquinas e saíram de casa acreditando um dia voltar. Talvez quando as baleias voltassem. Nunca voltaram.</p>
<p>Há dez anos, os mais numerosos habitantes dessas casas eram renas e ratos. Hoje são focas de pelo, elefantes marinhos e guias de turismo, que o governo da Geórgia do Sul tenta preservar.</p>
<p><a href="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/P2-na-geórgia1.jpeg" class="lightbox" rel="galeria_5130"><img class="alignnone size-full wp-image-5133" src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/P2-na-geórgia1.jpeg" alt="P2 na geórgia" width="2000" height="1333" /></a></p>
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		<title>Cedo ou tarde, vamos ter que admitir: o pó existe</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:48:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara No carro há mil horas. Marininha já me provocava se espalhando pelo banco de trás, a linha de frente da coxa avançando sobre o risco divisório entre o campo do meu banco e campo do banco dela. Eu não levantaria a voz tão cedo. Foi minha ideia fazer a família atravessar a Namíbia [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>No carro há mil horas. Marininha já me provocava se espalhando pelo banco de trás, a linha de frente da coxa avançando sobre o risco divisório entre o campo do meu banco e campo do banco dela. Eu não levantaria a voz tão cedo. Foi minha ideia fazer a família atravessar a Namíbia de carro. A Laura dormia profundamente com a bochecha esquerda enterrada no vidro e o pé esquerdo na minha perna direita. Aguenta. Mais um pouco e chegaremos a algum lugar com gente.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5107"></span></p>
<p>Bonita, mas a vista cansava a vista. Enquanto a centopéia do nosso trajeto crescia na tela do GPS, a paisagem mudava quase nada. Era como navegar num oceano congelado de tão lento. As dunas do deserto da Namíbia, ondas imensas de cor laranja-incêndio. Nosso carro, um barco microscópico sem chance de mudar o rumo. Um caminhão, um antílope, uma placa de proibido-parar-zona-de-diamantes, só. A cabeça da centopéia começou a quase tocar a moldura da tela, e vimos saliências ortogonais e formas reconhecíveis nascentes da areia. Casas pequenas e casas grandes, telhados pra neve da Alemanha, pra cobrir pessoas da Alemanha e interesses da Alemanha em explorar diamantes no início do século passado.</p>
<div class="mceMediaCreditOuterTemp alignnone"><img class="size-medium wp-image-1153" src="http://www.esquina.net.br/wp-content/uploads/2018/01/janela-1-of-1-3-551x413.jpg" alt="" width="551" height="413" /></div>
<p>Saímos da clausura do carro pra andar pela cidade imersa no infinito. Ondas de areia lavaram portas e janelas de Kolmanskop. Tomou celeiros, quartos e salas de baile. Encheu banheiras onde europeus tomaram banho até esvaziarem das dunas os preciosos motivos de estar ali. Antes deles, apenas povos nômades moravam na areia. A imagem de dessa cidade responde por quê: o perigo de navegar em tempestade é querer parar o barco em ondas que se movem. As dunas se movem.</p>
<p>Deve ser isso que pensa o faxineiro do museuzinho de Kolmanskop, que hoje recebe visitantes entusiasmados. Obrigado a combater a natureza com uma vassoura e uma pá, ele nega o quanto pode que a cidade é mais fraca que o mundo. Mas olha ao seu redor e sabe: cedo ou tarde, teremos que admitir que o pó existe.</p>
<p>Voltei pro carro com areia nas fendas do tênis, conformada a me encaixotar por mais uma hora entre minhas irmãs. Só é possível cruzar o deserto em poucos dias se formos mais coisa e menos gente. Nos acostumamos a cercar lugares de paredes, cercar espaços de paredes, cercar corpos de corpos e de paredes, e a graça de cruzar linhas imaginárias e, incrível, voltar a vê-las e saber que, diante dos gigantes, paredes insistem.</p>
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		<title>Nota Sobre o Amor</title>
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		<pubDate>Sun, 22 May 2016 18:55:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
		<category><![CDATA[Paraty]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
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		<description><![CDATA[- Tamara Foi sequestrado em Paraty. Corria ávido pela praia do engenho e, ao nos ver, veio dar em cima. Aquela coisa de pedir carinho, se esfregar na perna e correr atrás do galho que a gente atira. Pelo estado, não tinha dono &#8211; enfiamos na caçamba da picape e pegamos estrada. Paramos na cachoeira [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">- Tamara</p>
<p>Foi sequestrado em Paraty. Corria ávido pela praia do engenho e, ao nos ver, veio dar em cima. Aquela coisa de pedir carinho, se esfregar na perna e correr atrás do galho que a gente atira. Pelo estado, não tinha dono &#8211; enfiamos na caçamba da picape e pegamos estrada.</p>
<p>Paramos na cachoeira da estrada de Cunha. Foi lá o batizado e o banho de água doce pra tirar o excesso de lama com areia dos olhos. Água sagrada de Paraty, padrinho, madrinha e nome: Rufus.<span id="more-4958"></span></p>
<p>Agora era oficial, e foram oficiais 4 horas pra chegar em casa. Ele escorrendo pela caçamba &#8211; quente e fechada, ainda por cima &#8211; a gente escorrendo pelo banco de trás, na estrada de argila que orávamos pra não desbarrancar. Checamos de 50 em 50 quilômetros se estava tudo bem. Estava, chegamos.</p>
<p>O processo civilizatório foi difícil, mais pra nós que pra ele. Rufus não entendeu que dentro da casa era lugar de gente, e que, portanto, não é pra marcar território. Não aprendeu a passear junto a mim &#8211; causando sérios constragimentos quando eu marquei encontros no parque; exímio artista, talhou com dentes os pés de todas as mesas e cadeiras da sala; ávido leitor, engoliu jornais antes mesmo do amanhecer. Fomos maus jesuítas e não catequizamos nem convertemos: ele ainda corre atrás de passarinhos &#8211; e come.</p>
<p>As visitas, que desconhecem seu lado selvagem, ficam babando. Depois das vacinas, banho, tosa e microcirurgia pra tirar os bernes na cabeça, confesso que ficou bem bonitão. Acho que ele sabe o ciúmes que causa na gente enquanto abraça quem só dá carinho e não tem que ser tirano.</p>
<p>Ele não tem utilidade. Não faz truque, não passeia, não acha nem esconde coisas, e tem dificuldade pra pegar graveto porque não ouve, cheira nem vê direito.</p>
<p>Certa vez ouvi que os relacionamentos de hoje duram pouco porque a gente espera que o outro nos faça feliz, e não espera ficar bem fazendo feliz o outro.</p>
<p>Acho que meu casamento com o Rufus perdura por isso: ele só serve pra amar.</p>
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		<title>Sublimação intransponível</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Apr 2016 17:07:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[- Tamara Pra onde o Pacífico e o Atlântico pelo Sul conversam, damos o nome de Drake. O encontro, no veleiro, é medido em dias: 7, na vela, ou 3, no motor. Prefiro chamar de conversa do que de discussão. Às vezes, os dois oceanos brigam como pais e filhos falando de política. São dias [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="p1" style="text-align: right;">- Tamara</p>
<p>Pra onde o Pacífico e o Atlântico pelo Sul conversam, damos o nome de Drake. O encontro, no veleiro, é medido em dias: 7, na vela, ou 3, no motor.</p>
<p>Prefiro chamar de conversa do que de discussão. Às vezes, os dois oceanos brigam como pais e filhos falando de política. São dias de cama e jejum, sem sair nem pra ir ao banheiro.  Outras vezes, os oceanos falam de música, de arte, de café. Nesse caso, o mar vira azeite, o barco quase não mexe e parece que nem saímos dos canais chilenos.</p>
<p class="p1"><span id="more-4935"></span></p>
<p>Quando éramos menores, nós três (e a Gigi, nossa amiga) forrávamos a sola da bota com papel toalha, e aproveitávamos o balanço pra escorregar pelo compensado naval do salão. Se caíamos no buraco da cozinha tinha chororô de 5 minutos até escorregarmos outra vez. Meu calcanhar de Aquiles era (e ainda é) sentir aquele cheiro de diesel sufocante, amargo e opaco vindo do aquecedor da cozinha. Tanto medo tinha do cheiro que não saía na cabine de comando nem pra domir. Não era boba: lá dava pra ver o mar e conversar com quem fazia o turno da vez.</p>
<p>No estreito de Drake se intensifica a rigidez, o agrupamento e a ordenação fixa dentro do barco. Como moléculas de água no estado sólido, não saímos muito do lugar. Quando as ondas crescem, quebramos o grupo em pedaços e não nos vemos por dias. Já se o mar acalma, ficamos fisicamente conectados no sofá da cabine de comando.</p>
<p>Raramente navegamos sozinhos. Petréis e albatrozes nos acompanham, voando sem parar. Uns com outros, fazemos piadas, contamos histórias, trocamos dicas anti-enjoo [&#8220;olha o horizonte&#8221;, &#8220;come maçã&#8221;, &#8220;toma remédio&#8221;, &#8220;deita&#8221;, &#8220;põe pra fora&#8221; (é o que mais resolve)] e apostamos quem vê o primeiro <i>iceberg</i>.</p>
<p>De certa forma, o Drake ajudou a preservar a Antártica: se fosse fácil chegar, não teria levado tanto tempo para se confirmar a existência de um &#8220;Anti-Ártico&#8221; no Sul da Terra. Não seria tão intocado, desconhecido.</p>
<p>Também não seria tamanha a alegria de estar lá: Destinos alcançados sem barreiras têm graça efêmera.</p>
<p>Lá está o <i>iceberg</i>. Primeiro sinal de uma enxurrada de maravilhas que vêm à tona: pinguins acompanhando o veleiro, focas de <i>weddel</i> em pedaços de gelo, montanhas (Terra!), e às vezes, baleias. Ocupamos toda a área disponível a bordo: tem festa na cozinha, correria no convés, penteado de cabos no salão, concerto de equipamento na garagem, e planejamentos de toda ordem em todo o lugar. Somos livres pelo espaço.</p>
<p>A presença do primeiro iceberg é o ponto que separa o estado mais rígido do mais volátil da viagem. E, por isso, essa mudança é tão sentida. Precisamos provar a dor pra, nas coisas belas, ver o sublime.</p>
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		<title>São Francisco do Sul</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Feb 2016 15:38:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Canal do Varadouro]]></category>
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		<description><![CDATA[- Tamara Eucaliptos, araucárias, ingás, coqueiros e, por fim, pisamos na restinga, descalças. Dobramos a barra da calça e entramos no mar de São Francisco do Sul (SC). Fomos para ver o Museu Nacional do Mar. Em uma crise de gestão, o museu anda hoje escondido, mas guarda uma das mais importantes coleções de embarcações [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="p1" style="text-align: right;"><span class="s1">- Tamara</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Eucaliptos, araucárias, ingás, coqueiros e, por fim, pisamos na restinga, descalças. Dobramos a barra da calça e entramos no mar de São Francisco do Sul (SC).</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Fomos para ver o Museu Nacional do Mar. Em uma crise de gestão, o museu anda hoje escondido, mas guarda uma das mais importantes coleções de embarcações tradicionais do mundo. Um pouco triste ver, coberto de pó, um conjunto de obras lindíssimo, produzido por gente que dedica a vida à arte de fazer canoas.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Estava de baixo da poeira o maior aprendizado da viagem.</span></p>
<p class="p1"><span id="more-4782"></span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Ficamos hospedados na casa de amigos de Joinville. O Rogério nos levou pra passear pela Baía da Babitonga. Quase um Vigílio que Dante inventou pra conhecer as esferas da vida após a morte, ele nos mostrou o que conhece e sabe do lugar onde mora, enquanto passemos por lá. Navegamos em canais pouco conhecidos, procuramos guarás, acompanhamos bateiras de pesca, tomamos banho de mar; em todos os lugares, alguém conhecia nosso condutor, em todos os lugares, sofríamos de dor na barriga de tanto rir das histórias dele. “Estar aqui é como estar no Paraíso”, achei que o Rogério falava da paisagem, era bonita mesmo.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Fui com o primo dele pescar camarão. Jogamos a rede na água e, em pouco, tempo senti as puxadinhas dos crustáceos. Ao subir a rede, me assustei com o bagre que veio junto, e corri pra devolvê-lo vivo. Passamos perto de barcos pesqueiros maiores; todas as proporções da nossa bateira eram multiplicadas: ao invés de braços humanos, duas hastes de 5m saiam do barco perpendicularmente, e estendiam a enorme rede na água com a ajuda de peças de chumbo. Ao invés de pequenos peixes pegos por engano, os barcos arrastavam um volume de sedimentos e outros animais muito superior à porção de camarões que interessava. Esses mesmos pescadores, por outro lado, sofrem com pagamentos baixos que, de certa forma, acabam estimulando essa atividade predatória. </span></p>
<p class="p1"><span class="s1">A Marininha reclamava de fome. Respondendo que já estávamos “mais perto que longe” de casa, Rogério nos levou para comprar ostras. O vendedor fazia questão de não apenas vender, mas dar uma palestra sobre produção e preparação dos moluscos que oferecia. Foi assim que o vício do meu pai, e do vendedor, contaminou o resto da nossa família, e passamos a construir nosso sambaqui* particular com as conchas vazias.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">O passeio de barco foi quase uma Divina Comédia. Conheci o purgatório de quem sofre com a profissão e, por consequência, me leva a fugir do que produzem. Por outro lado, percebi que estar cercada de gente que ama o que faz, é mesmo a melhor forma de estar ,pelo menos, “mais perto que longe”, do paraíso.</span></p>
<p class="p3"><span class="s1">*<span class="Apple-converted-space">  </span>sambaqui &#8211; um amontoado de conchas, ossos, cerâmica, entre outros, feito por povos litorâneos na Pré-História do Brasil</span></p>
<p class="p3"><div class="flexslider" style="width:930px; height:524px; "><ul class="slides"><li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/IMG_3464-930x524.jpeg" alt="" /><p class="flex-caption">Eram muitas as bateiras de pesca</p></li>
<li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/IMG_3353-930x524.jpeg" alt="" /><p class="flex-caption">As baleeiras pesqueiras têm grandes redes de arrasto</p></li>
<li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/IMG_3251-930x524.jpeg" alt="" /><p class="flex-caption">Os biguás faziam uma coreografia sobre os pescadores</p></li>
<li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/IMG_3420-930x524.jpg" alt="" /><p class="flex-caption">Chegávamos perto dos grandes navios que saíam de Itajaí e São Fco. do Sul</p></li>
<li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/IMG_3450-930x524.jpg" alt="" /></li>
</ul></div></p>
<p class="p3"><a href="http://www.irmasklink.com.br/categorias/diario-de-bordo/" class="submit submitTheme" title="VEJA OUTRAS EXPERIÊNCIAS">VEJA OUTRAS EXPERIÊNCIAS</a></p>
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