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	<title>Irmãs Klink &#187; Paraty</title>
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		<title>O Mundo em Poucas Linhas</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 10:18:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[-Tamara Escrevo como uma draga come o fundo de um canal. E come um rio, e come um fundo de mar inteiro. É meu tempo que drago ferozmente, ao tatuar meus dias nos maços de papel. Escrevo anos há anos, mesmo sem ter vivido tantos assim. E eu já sei: jamais lerei um quinto do [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">-Tamara</p>
<p>Escrevo como uma draga come o fundo de um canal. E come um rio, e come um fundo de mar inteiro.<br />
É meu tempo que drago ferozmente, ao tatuar meus dias nos maços de papel.<br />
Escrevo anos há anos, mesmo sem ter vivido tantos assim. E eu já sei: jamais lerei um quinto do que escrevi.<br />
Isso porque ao ler o passado eu não me reconheço. E pois não quero admitir que nele eu me vejo demais.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5184"></span><br />
Não suportaria saber que em tantos anos eu erro as mesmas crases, largo incompletas frases, repito as palavras preferidas e tendo a rimar rimas pobres sem razão.<br />
Eu tinha 8 anos quando minha mãe me disse assim:<br />
&#8211; Toma esse caderno em branco e escreva sobre o dia. TODO. DIA.<br />
E eu peguei o elemento de capa verde com glitter e um mini cadeadinho no canto e falei:<br />
-  Tá bom.<br />
Estávamos de férias em um veleiro a caminho da Antártica. E eu queria saber como nadavam os pinguins, se a never ao cair do céu tinha a forma de uma estrela. Eu era criança, mas precisaria orquestrar minhas vontades entre a aventura e a disciplina. Pela primeira vez na vida, eu recebia a missão ingrata de passar uma parte do tempo passando a limpo o que aconteceu. E o fiz. Com os anos, o desafio de escrever virou compromisso, e o compromisso virou um amor sem o qual eu não sei ser.<br />
Enquanto teço este texto que veste meus pensamentos, um painel de botões e números me conta os perigos do oceano. Vencemos onda a onda lentamente, e o vento nos puxa para longe da costa. Poderia durar pra sempre, eu penso, a ação de avançar sem fim. Um dia encerra a noite anterior, o sol nasce sobre a chuva e as nuvens grandes fazem a sombra passear no nosso barco. Mas o painel de instrumentos diz outra coisa: falta muito pra chegar, há pedras submersas no caminho, um navio avança em nossa direção e é tarde. Os números me dizem o que meu corpo não sente: estou há horas demais sem dormir.<br />
Algo me lembra de falar deste momento. Tento me decifrar como os números tentam decifrar o mar. Mas é difícil, pois o diário é um jogo de tradução e omissão. É preciso dar à lembrança o corpo das palavras. É preciso fazer um mundo caber em poucas linhas. E é preciso entregar a precisão ao esquecimento. O caderno tem folhas finitas, o papel pesa na mão, e o minuto descrito dura o mesmo que o minuto de escrever. Se tentássemos guardar tudo, o dia seguinte seria sempre o registrar do dia anterior até<br />
pararmos<br />
no<br />
tempo<br />
.<br />
.<br />
e os pinguins nadarem lá fora, a neve cair, e o dia escorrer como as estrelas de gelo escorrem pelo convés do barco, sem platéia.<br />
Eu me entrego ao desafio de me conter, apesar de saber que não lerei meus diários todos. Mesmo assim, cada um tem seu lugar na estante desse barco. Por déficit habitacional, alguns moram em puxadinhos sobre seus vizinhos. Outros, dormem entre seus pais e avós, bem apertados. Na minha ausência, a estante será o resumo das versões que eu assumi. Acumulo os cadernos de viagem como minha mãe guarda meus desenhos de criança com macarrão cru e massinha de modelar colada. Acumulo na tentativa inútil de conter o tempo. Incontinente.<br />
Enquanto minhas mãos me lembram que faz frio, e meus lábios trazem o sal do mar à boca, eu me dou conta de que o registro não fala do passado; pela sua própria natureza, ele fala de agora. Do que vêm à cabeça quando o sol ressurge atrás dos montes molhados, quando tememos enjoar ao encarar um ponto fixo, e quando estamos em guerra contra a tensão branca do papel. Por isso, não preencho os cadernos para lê-los um dia, preencho por preencher e os guardo como troféus de batalhas vencidas. Cada folha ocupada, um império. Quando estão em pilhas, cada um é diluído entre os semelhantes. Sozinhos, um único pesa mais que todos juntos.<br />
E o escrito mais pesado de todos é o que escrevo agora.<br />
Eu levei todos os textos da minha vida para escrever este. Pois o produto final de cada registro é o próximo registrar.<br />
Escrever diários é difícil por que todo dia tem uma chance de eternidade. E outra chance, ainda maior, de sumir para sempre. Ele pode ser lido por gerações ou pode se perder no caminhão de mudança. E é por isso que acumulamos tanta coisa tosca.<br />
Nunca esqueci uma reportagem da tevê sobre um jabuti reencontrado depois de 30 anos. A família do jabuti acumulou tanta coisa na casa que o animal se escondeu nos objetos e foi da infância para vida adulta sem ser notado. Numa faxina geral, ele foi achado vivo: uma pisadela e um beliscão do passado com presente. Como o texto no miolo dos cadernos de viagem, o bicho dentro da casca tem vida própria e passeia sozinho pelas casas das pessoas que o possuem.<br />
E isso nunca foi claro para mim até começar a publicar meus diários no meu canal do YouTube (youtube.com/TamaraKlink). O novo formato nasceu de um desafio: aprisionar palavras que estavam fora do meu controle. O tom do meu cansaço, do medo, do tédio profundo e da falta de assunto ao navegar. Alguns audios viraram vídeos, e do mar foram parar no ar. Escrevo agora, no invisível.<br />
Escrevo por escrever. Mas preciso admitir que mora em mim uma mini esperança que registrar vai frear o escorrer do tempo. Aqui, minhas preocupações são visíveis: o rumo, as pedras, os outros barcos. Eu estou exausta, e troco horas de sono por horas sonhando acordada. Me sinto sozinha, e converso com as ondas, comigo mesma, com amigos infinitos imaginados. Minha maior vontade é chegar, e meu maior medo é o fim da travessia. Por isso, crio um universo paralelo e controlado. Talvez assim seja possível represar nas minhas mãos o agora, conter cada instante nesta memória, e deixar aberta a porta do ontem pra quando quiser voltar.<br />
Não voltarei.<br />
E ao escrever, esqueço que drago o tempo de dentro pra fora, no canal, no rio, no mar profundo.<br />
Como o som das ondas lambendo o casco, o texto só existe enquanto for ouvido. E se quiser matá-lo, vire essa página. Para sempre.</p>
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		<title>Navios são cidades provisórias</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:59:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Antártica]]></category>
		<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
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		<description><![CDATA[por Tamara Os corredores do navio eram extensões das ruas da cidade. O barco deixava o cais com a dificuldade de uma criança que começa a desmamar. Se da cidade bebeu água limpa, provisões e combustível, agora, feito uma criança grande, partia só e lentamente, sem ter como ser carregado. Em Ushuaia, as ruas e [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Os corredores do navio eram extensões das ruas da cidade. O barco deixava o cais com a dificuldade de uma criança que começa a desmamar. Se da cidade bebeu água limpa, provisões e combustível, agora, feito uma criança grande, partia só e lentamente, sem ter como ser carregado.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5125"></span></p>
<p>Em Ushuaia, as ruas e corredores brotavam do mesmo olho d’água que era o porto. Nele a cidade nasceu e pra ele estava virada inteira. Dos mirantes presos ao barranco, dos degraus das suas calçadas inclinadas, era a vista mais instigante o edifício flutuante. Ele dormia no ancoradouro. Logo eu dormiria nele.</p>
<p>Enfiei meu cartão magnético na fenda leitora de cartões magnéticos e esperei a luzinha verde aparecer pra poder entrar na cabine. Uma fila de pessoas levando malas-tamanho-mudança fazia pressão para eu dar espaço na passagem estreita. Vermelha, vermelha, nada de luz verde, isso tinha que acontecer bem agora! Estacionei nossas malas no corredor e corri em direção à recepção, deixando pra trás um estrangulamento na via principal. Escada ou elevador? Me arrependi de ter escolhido a escada porque eram muitos os andares até lá.</p>
<p>Desci um lance, três, doze e me vi num pátio industrial escuro em frente a botes de borracha, motores desmontados, garrafas de óleos e peças sujas. Para então na minha frente um sujeito vestido com macacão azul e fones anti-qualquer-som-do-planeta e, antes que eu pudesse entender o seu figurino, ouço um som rouco e ensurdecedor que fazia tremer o chão. Gritei em silêncio com os lábios e as mãos “What’s this?” Era o som dos motores ligados. Naquela tarde, era o som da partida.</p>
<p>Subi dois pavimentos e encontrei novamente o carpete azul marinho que gramava os ambientes servidos aos passageiros. Passo por um homem sentado no chão com cara de mar. Uma mulher com um carrinho de bebê vazio falava ao telefone em língua desconhecida. A dupla de homens de colete de moletom e walkie-talkies andava com os olhos sobre pranchetas e desviava de mim, que desviava de um bebê sentado numa piscina de creme de milho na frente da recepção. Pode escanear de novo esse atestado…os dois comprimidos são do dia e à noite são…tenha paciência, é a quinta vez que eu falo…acho que cai o presidente antes da final…Miss. Miss. Is there anything I can help you with? A chave! Peguei a tal, desviei do bebê e voltei a derivar pela malha acarpetada do navio.</p>
<p>No terço da frente do barco estavam os espaços comuns. No restaurante, no café, no bar, nos sofás de ficar observando o mar, pessoas liquidificavam suas histórias de tempos e lugares variados. Era completamente diferente da zona exclusivamente residencial dos quartos. Fria, vazia e sem graça, ela esta era acessada por um corredor central que parecia um longo túnel de portas. Nele, estavam as três malinhas e, em posse da chave certa, enfiei-me na cabine com elas todas.</p>
<p>Fechei a porta dos 10 metros quadrados com banheiro incluso. Sentei no sofá-cama-prateleira-porta imã de geladeira e fiquei pensando em como tornaria aquela caixa estéril um refúgio pra três pessoas. A luz do sol argentino desenhava no carpete azul a forma circular da esquadria. A minha irmã pisou no desenho do chão sem vê-lo e gritou para irmos ver a desatracação.</p>
<p>Corremos pelo corredor perimetral aberto e vimos no cais os moços que soltavam cabos que soltavam o porto, tornando a extensão da cidade uma cidade em si. Ao deixar a plataforma, o navio se tornara provedor da própria infraestrutura. Água, energia e comida deviam ser geridas ou produzidas a bordo, numa temporária e aparente autossuficiência.</p>
<p>Começou a escurecer do lado de fora e dentro de mim. No vento salgado, eu assistia as luzes de Ushuaia se “miudecerem” na saída do canal até até. Ouvia o estalo melado da sucção das ondas lambendo o casco, e as vozes abafadas por música, por distância e por paredes com várias camadas. O nosso embalo era suave apenas enquanto estivéssemos abrigados. Éramos uma casquinha de noz no oceano.</p>
<p>Entrei para tomar sorvete com sabor de letras grudadas norueguesas e cobertura de dulce de leche. Pensei que não importava se estávamos no mar báltico, no cabo da boa esperança ou nos canais chilenos. Poderíamos estar em qualquer um deles: as barreiras entre os lugares eram a capacidade do barco de existir sozinho e a vontade do capitão de nos conduzir.</p>
<p>Os navios são cidades provisórias, que deslocam e são deslocados por pedaços de outras cidades. A elas confinam, a elas recriam aos moldes das conversas com suas escalas. Dormi na cabine, que não parecia mais ser tão pequena. No meio do mar, cabia um mundo inteiro.</p>
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		<title>O centro histórico de Paraty é o palco de um teatro sem fundo</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:46:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara E é nesse teatro que certa parte da cidade ganha pão, pois vende pão (e circo) pra platéia de inglês, francês, paulistano, carioca, e assim por diante. Patrimônio aham, preservadas as fachadas dos prédios do centro e um certo tanto do seu conteúdo. As gentes, essas sim, as gentes que ali moravam já [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div class="media-credit-container alignnone" style="text-align: right;">por Tamara</div>
<p>E é nesse teatro que certa parte da cidade ganha pão, pois vende pão (e circo) pra platéia de inglês, francês, paulistano, carioca, e assim por diante. Patrimônio aham, preservadas as fachadas dos prédios do centro e um certo tanto do seu conteúdo. As gentes, essas sim, as gentes que ali moravam já não se sabe que fim têm levado —  diz com nostalgia quem morou na rua do comércio, naquela de janela azul e verde, na corrente, na rua do mercadinho.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5104"></span>Ou se mora pra viver, ou se trabalha pra manter a casa tombada que custa uma fortuna. O centro esvazia no inverno. E isso nem é especial de Paraty: a gente sabe que nas nossas cidades de praia, só tem casa nos lugares descolados quem não trabalha alí. E estou mais que ciente de que componho a leva de habitantes fantasma que só aparecem nos feriados.</p>
<p>“É muito turista e a cidade não comporta”  — quem nunca pensou nisso que faça o primeiro comentário hater — pode ser uma fala elitista diante do custo relativamente baixo para passar um fim de semana num lugar paradisíaco. Mas é uma fala que tem um certo sentido já que a maior parte da cidade não tem tratamento de esgoto. Nas marés mais altas, a água do mar ainda invade as ruas do centro e carrega lixo pro mar, aquele lixo urbano que a gente conhece bem. Não há sistema de tratamento de esgoto e, em alguns lugares, o lençol freático é tão alto que construir fossa séptica não é opção. Culpa dos moradores jogar esgoto no rio? No mar? No lençol freático? Não, penso que não. Mas vou confessar aqui que também não sei de quem é. Chuto que é o poder público, mas vai saber o que isso quer dizer.</p>
<p>E talvez os turistas (eu, inclusive) e moradores até se contenham com um cheirinho ruim aqui, umas tartarugas sufocadas de plástico ali. Mas difícil ignorar aquele constante friozinho na barriga ao passar por uma rua vazia e mal iluminada sabendo dos dados do Mapa da Violência de 2016. A gente acha que a situação no Rio está grave com 13,1 homicídios para cada 100 mil habitantes. Pois bem, a cidade Paraty, constantemente lembrada como pacata e bonitinha está saindo dessa com 60,9 homicídios para cada 100 mil. Mas que coisa. Culpa das drogas, segundo as pessoas. Algumas que até consomem drogas. “Mas a droga que eu uso é mais suave, não é esse tipo tal”. Tá, tá, tá, prossigamos.</p>
<p>E se vamos falar de perigo, que tal lembrar dos célebres passeios de saveiro de dois andares que saem lotados do pontão todos os dias de sol? Não é necessário ter aulas de engenharia naval para saber que quando a gente transfere o peso de um joão bobo do pé pra cabeça, ele vira. Cinquenta reais/pessoa/dia vezes quantas pessoas couber em quantos andares for possível construir. Sugiro que se juntem a mim numa oração coletiva pra que nunca apareça um golfinho.<br />
“Falta educação”. Falta educação. “Falta investimento”. Não entendo de orçamento público, mas é uma hipótese a estudar. “Falta cultura”. Falta sim, cultura, mas mais que a nossa cultura de cinema cult de cidade grande, música clássica e literatura de prêmio Nobel uma vez por ano, faltam instrumentos pra quem quer, fazer a cultura própria da pessoa. E falta cultura ser um caminho que enobrece, enriquece ou, pelo menos, se sustenta. E não um caminho mais duro e mais difícil do que a própria vida já é. Mesmo assim, junta um daqui, um dali, a caixa de som emprestada, a bateria do primo, a câmera do celular, o estaleiro que virou nada e pronto. Fazem sim. É procurar pra achar.<br />
Minha paixão verdadeira é barco. Mas não vou falar das canoas tradicionais de Paraty, dos remos, que isso é coisa que já sumiu faz um tempo e pouca gente notou. Mesmo assim, parecem estar na água soluções para alguns problemas. As marinas crescem em número e porte, e empregam dezenas de pessoas competentes e excelentes. Também vem do mar peixes e frutos que fazem a gastronomia da cidade autêntica. São potências. Nem todo futuro é turvo, mas para alcançá-las, é preciso responder questões:</p>
<p>O que é preservar a fachada do centro histórico se as pessoas não são preservadas? Se a paisagem não é preservada? Se a cultura some das ruas e o esgoto surge no rio? O que quer dizer Patrimônio, onde há medo?</p>
<p>Chega mais um novo ano, mais sete ondas pra muito mudar. A peça está rolando e a coxia não da conta de esconder os contra-regras. A cena e o cenário não combinam e estão passando outra demão de cal. Tem quem atua, quem assiste, quem vende pipoca e quem tem uma ideia melhor. E você? Quer assistir o quê?</p>
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		<title>Seis desafios de morar em um veleiro</title>
		<link>http://www.irmasklink.com.br/seis-desafios-de-morar-em-um-veleiro/</link>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:40:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
		<category><![CDATA[Paraty]]></category>

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		<description><![CDATA[por Tamara Cada vez mais me interesso pelas pessoas que moram no mar e pela forma como vivem. Deixar o trânsito da cidade, o ritmo urbano, a poluição e o estresse e viver entre o azul do céu e do oceano parece uma ideia sedutora para qualquer pessoa insatisfeita em morar entre asfalto e arranha-céus. [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Cada vez mais me interesso pelas pessoas que moram no mar e pela forma como vivem. Deixar o trânsito da cidade, o ritmo urbano, a poluição e o estresse e viver entre o azul do céu e do oceano parece uma ideia sedutora para qualquer pessoa insatisfeita em morar entre asfalto e arranha-céus. A cada dia eu encontro mais brasileiros que venderam casa, empresa, se demitiram e compraram um veleiro. Também já conheci quem decidiu construir o próprio. Algumas pessoas vão mais preparadas, outras menos. Mas, muitas vezes, descobrem depois que habitar uma casa flutuante vai muito além de velejar.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5098"></span></p>
<p>Perguntei para amigos velejadores quais são os maiores desafios de morar a bordo. Há muitas coisas que não sei e não vivi, e com certeza há muitas outras questões que não aparecem no texto. Mas talvez você se surpreenda os 6 principais desafios destacados a seguir:</p>
<p>1. A VIDA DO BARCO É QUASE TÃO IMPORTANTE QUANTO A SUA PRÓPRIA<br />
A liberdade é uma condição relativa. Estar em um veleiro permite conhecer muitos lugares, mas isso só é possível se o barco está preparado. O tempo todo coisas quebram, o tempo todo há manutenção, trocas e concertos. Segundo o velejador Bruno Morino, do Speranza, o tempo que se passa arrumando o barco é pelo menos 5x maior do que se passa velejando, mesmo se o barco é novo. Para a velejadora Carina Joana, do Criloa, se tem liberdade para decidir como usar o tempo, mas isso não significa que há ócio. A vida a bordo pede um grande volume e diversidade de fazeres.</p>
<p>2. A ÁGUA TEM PESO, VOLUME E FIM<br />
Os recursos são finitos, e toda a infraestrutura existente é gerida pelos habitantes do veleiro. Existem algumas formas de lidar com a limitação de água: Usar calhas para captar chuva, ligar um dessalinizador, tomar banho no mar (ou não tomar), encher galões com água de rios, nascentes ou geleiras, depender de marinas para abastecimento. Mas seja qual for a solução, é consenso que o volume de água disponível/consumida define a autonomia de um barco. O racionamento é uma condição natural, e a forma de enfrentá-lo é de livre escolha e dependem dos recursos financeiros, da criatividade e da capacidade da pessoa de se adaptar às necessidades.</p>
<p>3. GERIR A ENERGIA DO BARCO E A PRÓPRIA<br />
Quem mora em barco presta atenção no consumo energético de tudo. Dos aparelhos elétricos ao consumo do próprio corpo. Como me disse o Bruno, é extremamente importante se planejar para que o seu consumo seja compatível com sua capacidade de produção e armazenamento.</p>
<p>As fontes de energia elétrica podem ser painéis solares, geradores a diesel ou eólicos, e as baterias precisam de atenção. Muitos velejadores não têm geladeira, e encontram alternativas para conservar os alimentos. Fiquei fascinada com as conservas de vinagre que o Elio Somaschini tinha no veleiro Crapun. Com elas, poderia comer legumes frescos mesmo após semanas no mar. Em uma travessia, também é importante saber gerir as horas de sono, uma vez que imprevistos estão na previsão.</p>
<p>4. ESTAR NO MESMO BARCO É ESTAR NO MESMO BARCO<br />
A velejadora Carina Joana mantém o Criloa sozinha. Quando se mudou para o barco, levou também a cadela Abigail. Morar com um animal só é possível porque a Abigail se comporta como tripulante: sabe onde ficar em cada situação, e usa colete ao andar pelo convés. Acredito que é importantíssimo que todas as pessoas (1) absorvam a cultura do barco, (2) se comuniquem com clareza, (3) sejam adaptáveis e (4) proativas. (5) Conflitos são normais, mas precisam ser passageiros. Quanto menor o barco, mais importante saber ceder e cooperar. Todas as pessoas podem ajudar, não importa a idade ou a experiência. No diário de viagem do veleiro Planckton, a Cecília e o Fábio contam que o filho, Igor, ainda era um bebê e já se oferecia para ajudar os pais. A postura preparada e proativa é bem vinda em qualquer pessoa.</p>
<p>5. CADA COISA MORA EM SEU LUGAR<br />
Debaixo da cama pode estar a dispensa. Atrás do sofá estão as peças de reposição. A quantidade de coisas que cabe em um veleiro é inacreditável. Mas cada objeto tem um lugar exato. Segundo a Carina, “Uma das grandes tarefas apresentadas pelo barco é descobrir o lugar de cada coisa. São meses trabalhando nessa descoberta e desenvolvendo a disciplina necessária para manter o barco em ordem e não competir espaço com as coisas.”</p>
<p>6. SABER LER E INTERPRETAR OS SINAIS DO AMBIENTE<br />
As nuvens dão a previsão do tempo. O vermelho do sol poente fala sobre a tempestade. Pelas ondas é possível ler o vento. A capacidade de pescadores de interpretar os sinais do meio pela observação é extremamente valiosa. Mas, além da experiência intransferível, ferramentas como barômetro, cartas náuticas, tábua de marés, cartas sinóticas, profundímetro e etc. são úteis e necessárias para navegar com segurança por lugares desconhecidos.</p>
<p>A Carina me contou: “O barco é espaço e é corpo ao mesmo tempo: é a casa de alguém, é também um corpo que habitará enseadas, cais, praias, caminhos e vai se relacionar de formas adaptadas à cada lugar e vizinhança.” E, sendo um corpo, o veleiro fala o tempo todo, “pelos os cabos batendo no mastro e esticando na proa, os motores que passaram longe mas cantam numa vibração suave no casco.” Ela aprendeu a entender o som da vida marinha se desenvolvendo no fundo do barco. “São muitos sons circulando quem está a bordo e conhecer cada um deles traz conforto e segurança.”</p>
<p>Se você tem o sonho de morar numa cidade flutuante, espero que essa lista te ajude a se preparar. Se não, espero que esse texto sirva para perceber que cada banho quente, cada legume fresco, cada lâmpada acesa com facilidade é um presente da viagem que é morar em terra firme.</p>
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		<title>Desvendar Parafusos</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Oct 2016 22:58:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara Tinha um vão entre o costado do paratii2 e a draga à qual estávamos atracados. Pulei o vão e corri para a draga feito um macaco pra dar o último abraço nos meus pais, Irmas e nossas amigas, Cris e Tamara, que em silêncio já sabiam desde o começo, na nossa chegada à [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="graf graf--p graf--leading" style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p id="a7ed" class="graf graf--p graf--leading">Tinha um vão entre o costado do paratii2 e a draga à qual estávamos atracados. Pulei o vão e corri para a draga feito um macaco pra dar o último abraço nos meus pais, Irmas e nossas amigas, Cris e Tamara, que em silêncio já sabiam desde o começo, na nossa chegada à Abrolhos, que aquilo iria acontecer.</p>
<p id="444b" class="graf graf--p graf-after--p">Olhei pras caras do Rafael e do Danilo esperando a indicação de que sairíamos. Motores ligados, toda a tripulação (de 3) no convés em silêncio. “Tem que ter o feeling”, disse o segundo.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5038"></span></p>
<p id="c1e9" class="graf graf--p graf-after--p">Que raios de feeling, meu Deus? O de ter desfeito compromissos, rasgado a passagem de volta e ver partir o grupo de pessoas com quem eu vim — sem mim?</p>
<p id="40f8" class="graf graf--p graf-after--p">Na primeira vez que, com voz quase infantil, pedi pra minha mãe pra ficar no barco até Paraty, ela disse “A gente veio junto e volta junto”. — Eu não tive a menor chance contra a sabedoria irrefutável dessa ideia fixa. No dia 23 de outubro, às 10 da manhã, segurei as alças da minha mochila vermelha para conduzi-la até a van que nos levaria ao aeroporto de Rodrigo de Freitas. Muito a contragosto, enfiei no pé o tênis e sentei pra amarrar os cadarços. Fiz questão de ser a primeira a estar pronta e a ultima a sair, como sempre — talvez só pra provocar. Vi quando minha mãe sentou ao meu lado, já com tudo no carro, e perguntou “Tem certeza que quer ficar?”</p>
<p id="9144" class="graf graf--p graf-after--p">Tive a sensação de que um cinto sufocava a boca do meu estômago.</p>
<p id="e91e" class="graf graf--p graf-after--p">Estrangulei minha euforia. Mentalmente tracei uma estratégia, fiz ligações para desmarcar compromissos indesmarcáveis e pesei as perdas acadêmicas causadas pela minha ausência. Tinha medo de responder — no fundo, ela ensaiava, pelas minhas ideias, sua confiança.</p>
<p id="e7d6" class="graf graf--p graf-after--p">O feeling. Agora eu era oficialmente um dos 3 que soltavam os cabos de atracação. Meus pés, já novamente descalços, eram empurrados pela reação da força peso do meu corpo correndo pelo EVA do convés — O mesmo convés em que 7 anos antes brincava com minhas irmas com neve austral. Aquele Drake foi a última longa travessia que fiz ali, e agora corria atrás dos cabos e do tempo pra compensar sonhados anos de navegação não consumados.</p>
<p id="11d2" class="graf graf--p graf-after--p">Nos afastamos do cais e eu vi que não tinha a menor chance de retorno. Ajudei o Rafael a subir as velas assim que deixamos o canal de Caravelas — eu meio envergonhada por não saber a função de cada cabo que puxei. Com força. Pulei pra dentro do barco pela gaiuta e limpei a cozinha o melhor e mais rápido que pude, pra ter tempo de perguntar pros outros 2 o porquê de cada coisa. <em class="markup--em markup--p-em">Qual a contribuição relativa das velas? Por que não abrir as genoas? Qual a relação da profundidade com o tamanho das ondas? Por que varia o som dos motores? E quando acabam os problemas — a gente faz o quê?</em></p>
<p id="5018" class="graf graf--p graf-after--p">Torci secretamente pra surgirem novos pepinos que me deixassem assistir sua solução. E não tenho do que reclamar: participei da tentativa malograda de tirar a genoa da proa — que, por não sair, acabou nos dando meio nó de velocidade a mais, vi o monitoramento de um vazamento de diesel que logo foi resolvido com a troca de todos os canos, entendi como esvaziar o porão da casa de máquinas que tinha de água, e acompanhei o djibe louco que estourou o preventer depois de uma quase colisão frontal com um navio babaca que não quis mudar de rumo apesar da nossa insistente sinalização e evidente preferência.</p>
<p id="7ae5" class="graf graf--p graf-after--p">Se a princípio eu não tinha turnos noturnos, acabei tapando vários buracos quando dos meus colegas exaustos — por vezes por mais de 4 horas na madrugada.</p>
<p id="c283" class="graf graf--p graf-after--p">Não conseguia mesmo dormir. Nem de noite, quando via a lua minguante com quem queria se casar o rato da música que cantei com a Marininha no dia anterior. Cansei de comer tapioca, pensando nas missões frustradas mas nunca inconclusas, que eu e a Laura cumprimos de acertar a forma da massa.</p>
<p id="6a3b" class="graf graf--p graf-after--p">Arrisquei um diário em video, pra de algum jeito conversar com minha mãe sobre os sucessos da viagem e levar ela pra dentro do barco. E, depois de dobrarmos as esquina em cabo frio, passarmos pela Ponta da Joatinga, e eu ficar encarregada da roda do leme até a Ilha da Bexiga, ainda estava lá.</p>
<p id="eb75" class="graf graf--p graf-after--p"><strong class="markup--strong markup--p-strong">A gente veio junto e volta junto. </strong>O barco da minha vida tem o meu pai em cada parafuso. Todo clique fotográfico é um preito à nossa cultura familiar de fazer registros — e o diário de cada um tem um pouco de todo mundo.</p>
<p id="5120" class="graf graf--p graf-after--p">Ao chegarmos à marina do engenho, ajudei a esticar os cabos sobre o cunho — e não foram os mesmos os pés que saltaram o vão entre a popa do barco e o flutuante. Se tem muito [muito] chão pra eu desvendar as razões de ser do Paratii2, ao menos agora eu sei que posso fazê-lo. Obrigada, pais — se sou criança nas vontades mas não nos compromissos, prometo tornar-los testemunhas de que consigo fazer o vão entre meus sonhos e o mundo terreno</p>
<p id="3ea9" class="graf graf--p graf-after--p">mais pequeno.</p>
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		<title>Na verdade,</title>
		<link>http://www.irmasklink.com.br/na-verdade/</link>
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		<pubDate>Sat, 25 Jun 2016 21:25:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Antártica]]></category>
		<category><![CDATA[Paraty]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Antartica]]></category>
		<category><![CDATA[crescer]]></category>
		<category><![CDATA[sonho]]></category>
		<category><![CDATA[Travessia]]></category>
		<category><![CDATA[viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[- Tamara O sonho é um monte de neve guardado num potinho. Na minha jornada pela superfície da Terra, colecionei suspiros, vi derreterem-se tesouros e reguei a fé que eu mesma assassinei. Minhas utopias materializadas tornaram-se desilusões banais. E me perguntei se era assim que as estrelas morriam, se fazendo visíveis. Mas não. Algumas estrelas [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">- Tamara</p>
<p>O sonho é um monte de neve guardado num potinho. Na minha jornada pela superfície da Terra, colecionei suspiros, vi derreterem-se tesouros e reguei a fé que eu mesma assassinei. Minhas utopias materializadas tornaram-se desilusões banais. E me perguntei se era assim que as estrelas morriam, se fazendo visíveis. Mas não. Algumas estrelas expostas na areia da praia podiam  viver, se devolvidas ao mar a tempo.<span id="more-4969"></span></p>
<p>Nesta mesma areia, desenhei os veleiros que via partir. Sabia que encontravam gelo, neve, ondas gigantes e baleias maiores ainda, e me enfiava nos barcos através dos rabiscos que fazia ali. Desenhos, <i>desígnios</i>, intenções. E tais intenções foram &#8211; quase que magicamente &#8211; atendidas quando veio do pai um convite.</p>
<p>— Quer viajar comigo?</p>
<p>Minha Nossa. Tão nova na insciência de tentar entender o mundo, senti tangível a realização de um sonho. Era óbvio que eu queria ir &#8211; queria ouvir o timbre dos meus desenhos. Assim que a maré subiu, os projetos saíram do papel e se conformaram no veleiro que me convidara pra viajar.</p>
<p>Preenchi a meia eternidade do trajeto contando ondas, aves marinhas, e ripas* de madeira do teto da cabine. Na verdade, contei mais ripas do que qualquer outra coisa, dado o balanço do barco. Tendemos a vegetar quando a boca está sob a constante ameaça de receber o almoço vindo do estômago.</p>
<p>Não me sentia sozinha, muito pelo contrário. Tinha a impressão de que na minha cabine estavam todos os motores e bombas do barco, rugindo. A única forma de fazer o silêncio ser ouvido, o barco sair da embriaguez e as ripas fazerem jus à sua desimportância, era manter a fé de que o projeto seria construído.</p>
<p>Eu tinha o privilégio do tempo imensurável. O relógio era inútil se não para entender a altura do sol. A velocidade nada dizia sobre o progresso cartográfico, uma vez que tempestades podiam vir de repente. Por isso, pude passar dias compilando mentalmente as imagens estimadas da terra dos viajantes, sem saber o quanto elas me frustrariam.</p>
<p>Nessas imagens, o vento não era motivo de dor. Também não era penoso o trajeto. Não pensei que a perda de sentido nos dedos seria preocupante. Não chorei de frio. Eram outras as velocidades, as escalas. E entrava agora pelas minhas narinas, pela minha boca, pelos furos dos pelos do meu braço, um odor glacial. Seco. E me dei conta de que mais que tudo, meu sonho não tinha cheiro.</p>
<p>Ao pisar em terra firme, deixei meu sonho &#8216;concretar-se&#8217;. Toquei a neve e senti a frustração da mãe que vê crescer no filho autonomia. Meu projeto assumiu uma identidade que não previu meu traço.</p>
<p>Peguei um punhado de neve, uma mini monte. <i>A fé move montanhas</i>. E enfiei num potinho que trazia no bolso do casaco. Levaria meu sonho comigo, acontecido.</p>
<p>Dentro do barco, peguei o recipiente e o examinei antes de por na mala. Só tinha água. Sonhos realizados não os são. Abri a tampa e joguei o seu conteúdo no ralo da pia.</p>
<p>Não movi montanhas com minha fé &#8211; aquela mini montanha tinha me movido. E lembrei de jogar a estrela de volta pro mar pra dar a ela a chance de viver. Voltamos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>*ripas &#8211; tiras compridas e estreitas de madeira</p>
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		<title>Nota Sobre o Amor</title>
		<link>http://www.irmasklink.com.br/nota-sobre-amor/</link>
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		<pubDate>Sun, 22 May 2016 18:55:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
		<category><![CDATA[Paraty]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[animais]]></category>
		<category><![CDATA[crescer]]></category>

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		<description><![CDATA[- Tamara Foi sequestrado em Paraty. Corria ávido pela praia do engenho e, ao nos ver, veio dar em cima. Aquela coisa de pedir carinho, se esfregar na perna e correr atrás do galho que a gente atira. Pelo estado, não tinha dono &#8211; enfiamos na caçamba da picape e pegamos estrada. Paramos na cachoeira [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">- Tamara</p>
<p>Foi sequestrado em Paraty. Corria ávido pela praia do engenho e, ao nos ver, veio dar em cima. Aquela coisa de pedir carinho, se esfregar na perna e correr atrás do galho que a gente atira. Pelo estado, não tinha dono &#8211; enfiamos na caçamba da picape e pegamos estrada.</p>
<p>Paramos na cachoeira da estrada de Cunha. Foi lá o batizado e o banho de água doce pra tirar o excesso de lama com areia dos olhos. Água sagrada de Paraty, padrinho, madrinha e nome: Rufus.<span id="more-4958"></span></p>
<p>Agora era oficial, e foram oficiais 4 horas pra chegar em casa. Ele escorrendo pela caçamba &#8211; quente e fechada, ainda por cima &#8211; a gente escorrendo pelo banco de trás, na estrada de argila que orávamos pra não desbarrancar. Checamos de 50 em 50 quilômetros se estava tudo bem. Estava, chegamos.</p>
<p>O processo civilizatório foi difícil, mais pra nós que pra ele. Rufus não entendeu que dentro da casa era lugar de gente, e que, portanto, não é pra marcar território. Não aprendeu a passear junto a mim &#8211; causando sérios constragimentos quando eu marquei encontros no parque; exímio artista, talhou com dentes os pés de todas as mesas e cadeiras da sala; ávido leitor, engoliu jornais antes mesmo do amanhecer. Fomos maus jesuítas e não catequizamos nem convertemos: ele ainda corre atrás de passarinhos &#8211; e come.</p>
<p>As visitas, que desconhecem seu lado selvagem, ficam babando. Depois das vacinas, banho, tosa e microcirurgia pra tirar os bernes na cabeça, confesso que ficou bem bonitão. Acho que ele sabe o ciúmes que causa na gente enquanto abraça quem só dá carinho e não tem que ser tirano.</p>
<p>Ele não tem utilidade. Não faz truque, não passeia, não acha nem esconde coisas, e tem dificuldade pra pegar graveto porque não ouve, cheira nem vê direito.</p>
<p>Certa vez ouvi que os relacionamentos de hoje duram pouco porque a gente espera que o outro nos faça feliz, e não espera ficar bem fazendo feliz o outro.</p>
<p>Acho que meu casamento com o Rufus perdura por isso: ele só serve pra amar.</p>
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		<title>Jurumirim</title>
		<link>http://www.irmasklink.com.br/jurumirim/</link>
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		<pubDate>Sat, 06 Feb 2016 20:21:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
		<category><![CDATA[Paraty]]></category>
		<category><![CDATA[Jurumirim]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Travessia]]></category>

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		<description><![CDATA[- Tamara Éramos duas. Marininha e eu, sentadas no convés do Paratii2 com as pernas penduradas pra fora, olhando, ancoradas, a baía do Jurumirim. Naquela mesma baía, muitas vezes assisti meu pai indo ou vindo de algum lugar feito de história malucas, animais estranhos e quase-desastres. Era um dia de sol. E, não sei por [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="p1" style="text-align: right;"><span class="s1">- Tamara</span></p>
<p class="p1">Éramos duas. Marininha e eu, sentadas no convés do Paratii2 com as pernas penduradas pra fora, olhando, ancoradas, a baía do Jurumirim.</p>
<p class="p1"><span class="s1">Naquela mesma baía, muitas vezes assisti meu pai indo ou vindo de algum lugar feito de história malucas, animais estranhos e quase-desastres.</span><span id="more-4754"></span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Era um dia de sol. E, não sei por que motivo, não aceitaram ao nosso insistente pedido de carona até a praia. Nossas perninhas balançavam em cima do bote de borracha amarelo, indo e vindo com a ondulação da água.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Na época, com 9 e 11 anos, eu e minha irmã brincávamos de tentar ligar o bote. A partida era dada puxando uma corda, e sofríamos contra os 50 cavalos que se uniam contra duas meninas num cabo de guerra quase desleal.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Não tinha ninguém olhando. <i>Flupt flupt</i> entramos as duas no botinho, soltamos os cabos e dei a partida. Nada. Ela tentou também, sem sucesso. Pegamos os remos e começamos a travessia. Mais ou menos no meio do caminho eu fui tentar de novo&#8230; e foi! Acelerei, comemorando nossa enfim liberdade! Demos uma volta, saindo da baía com velocidade o suficiente para planar.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">O vento nos cabelos, o barulho do acelerador, o mesmo bote que usamos em tantos desembarques no gelo. Sem adultos, sem restrições, sem documento, aquele momento podia ter durado pra sempre não fosse o repentino vôo de dois pequenos corpos pro chão, um súbito silêncio no motor e a certeza de que estávamos encrencadas.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Não me lembro o que se sucedeu. Imagino que escutamos um sermão, nos sentimos culpadas pela hélice entortada e agradecemos à sorte de não ter problemas maiores.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Mas o que poderia ter sido um trauma tornou-se a certeza de que, mesmo pequenas, temos força e inteligência o suficiente para ir atrás do que queremos, quando queremos.</span></p>
<p class="p1"><div class="flexslider" style="width:930px; height:524px; "><ul class="slides"><li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/DSC00654-930x524.jpg" alt="" /></li>
<li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/IMG_1595-930x524.jpg" alt="" /></li>
<li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/IMG_1512-930x524.jpg" alt="" /></li>
<li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/DSC02348-930x524.jpg" alt="" /></li>
</ul></div></p>
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<p class="p1">
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		<title>Paraty</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Feb 2016 21:43:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[pretel]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
		<category><![CDATA[Paraty]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[- Tamara Por 6 anos, meu objetivo na vida foi um só. A pele descascada nos meus ombros queimados era prova da minha dedicação para catar conchinhas. Em formato de borboleta, em cor de rosa, estreladas, enroladas e chatas, elas íam para o museu particular que eu tinha no quarto. Aprendi a reconhecer lugares pelo [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">- Tamara</p>
<p>Por 6 anos, meu objetivo na vida foi um só. A pele descascada nos meus ombros queimados era prova da minha dedicação para catar conchinhas. Em formato de borboleta, em cor de rosa, estreladas, enroladas e chatas, elas íam para o museu particular que eu tinha no quarto.</p>
<p>Aprendi a reconhecer lugares pelo formato, cor e espessura desses presentes da água. Em Paraty eram pequenas e arredondadas, em São Francisco do Sul, eram mais finas e compridas; no pantanal, marrons e quase esféricas(onde os tuiuius enfiavam o bico), na Antártica, pareciam pirâmides azuladas.</p>
<p><span id="more-4680"></span>Não sei exatamente em que ponto interrompi a coleção. Minhas irmãs reclamavam do carbonato de cálcio nas mesas do quarto, da areia nos armários e do uso privado do espaço público pela coleção. Um dia percebi que aquelas esculturas eram mais bonitas na beira d’água do que nas caixas transparentes do meu quarto, e que eu podia admirá-las sem possuí-las.</p>
<p>Aos 12 anos nossa mãe nos levou pra mergulhar. Nosso batismo foi em Paraty. E na água benta do oceano, vi o mundo que eu conhecia com a palma da mão e a sola dos pés, tornar-se tão pequeno frente ao universo que existia embaixo d’água. O cilíndro me deixava ir até peixes, tartarugas e estrelas do mar sem que, para isso, eles viessem até mim. Também vi conchinhas. Muitas. E em movimento.Como me enganei ao pensar que eram enfeites; eram habitações para muitos e diversos tipos de moluscos. Descobri, sem graça, que eu guardava, em terra, condomínios abandonados que pertenciam ao mar.</p>
<p>O mergulho me fez acreditar que a beleza existente no ecossistema marinho morria se parte dele fosse levada embora. Se hoje a natureza tem seus ornamentos, levou milhares de anos, seleções e acasos que resultaram na sobrevivência das espécies que protagonizam o presente teatro do oceano.<br />
Difícil pensar assim num tempo em que tudo que a gente gosta a gente quer levar pra casa. Mas acredito que meu prazer não estava no objeto, e sim na experiência de conhecê-lo. E, pra isso, basta a memória.</p>
<div class="flexslider" style="width:930px; height:524px; "><ul class="slides"><li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/IMG_9958-930x524.jpeg" alt="" /><p class="flex-caption">Praia de moluscos na Patagônia</p></li>
<li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/IMG_1363-930x524.jpeg" alt="" /><p class="flex-caption">Estrela do mar</p></li>
<li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/IMG_1512-930x524.jpeg" alt="" /><p class="flex-caption">Marininha fazendo o reconhecimento da região</p></li>
<li><img src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2016/02/IMG_5912-930x524.jpg" alt="" /><p class="flex-caption">Exploração na praia do Ticupê</p></li>
</ul></div>
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