Paraty

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desvendar parafusos

Tinha um vão entre o costado do paratii2 e a draga à qual estávamos atracados. Pulei o vão e corri para a draga feito um macaco pra dar o último abraço nos meus pais, Irmas e nossas amigas, Cris e Tamara, que em silêncio já sabiam desde o começo, na nossa chegada à Abrolhos, que aquilo iria acontecer.

Olhei pras caras do Rafael e do Danilo esperando a indicação de que sairíamos. Motores ligados, toda a tripulação (de 3) no convés em silêncio. “Tem que ter o feeling”, disse o segundo.

Que raios de feeling, meu Deus? O de ter desfeito compromissos, rasgado a passagem de volta e ver partir o grupo de pessoas com quem eu vim — sem mim?

Na primeira vez que, com voz quase infantil, pedi pra minha mãe pra ficar no barco até Paraty, ela disse “A gente veio junto e volta junto”. — Eu não tive a menor chance contra a sabedoria irrefutável dessa ideia fixa. No dia 23 de outubro, às 10 da manhã, segurei as alças da minha mochila vermelha para conduzi-la até a van que nos levaria ao aeroporto de Rodrigo de Freitas. Muito a contragosto, enfiei no pé o tênis e sentei pra amarrar os cadarços. Fiz questão de ser a primeira a estar pronta e a ultima a sair, como sempre — talvez só pra provocar. Vi quando minha mãe sentou ao meu lado, já com tudo no carro, e perguntou “Tem certeza que quer ficar?”

Tive a sensação de que um cinto sufocava a boca do meu estômago.

Estrangulei minha euforia. Mentalmente tracei uma estratégia, fiz ligações para desmarcar compromissos indesmarcáveis e pesei as perdas acadêmicas causadas pela minha ausência. Tinha medo de responder — no fundo, ela ensaiava, pelas minhas ideias, sua confiança.

O feeling. Agora eu era oficialmente um dos 3 que soltavam os cabos de atracação. Meus pés, já novamente descalços, eram empurrados pela reação da força peso do meu corpo correndo pelo EVA do convés — O mesmo convés em que 7 anos antes brincava com minhas irmas com neve austral. Aquele Drake foi a última longa travessia que fiz ali, e agora corria atrás dos cabos e do tempo pra compensar sonhados anos de navegação não consumados.

Nos afastamos do cais e eu vi que não tinha a menor chance de retorno. Ajudei o Rafael a subir as velas assim que deixamos o canal de Caravelas — eu meio envergonhada por não saber a função de cada cabo que puxei. Com força. Pulei pra dentro do barco pela gaiuta e limpei a cozinha o melhor e mais rápido que pude, pra ter tempo de perguntar pros outros 2 o porquê de cada coisa. Qual a contribuição relativa das velas? Por que não abrir as genoas? Qual a relação da profundidade com o tamanho das ondas? Por que varia o som dos motores? E quando acabam os problemas — a gente faz o quê?

Torci secretamente pra surgirem novos pepinos que me deixassem assistir sua solução. E não tenho do que reclamar: participei da tentativa malograda de tirar a genoa da proa — que, por não sair, acabou nos dando meio nó de velocidade a mais, vi o monitoramento de um vazamento de diesel que logo foi resolvido com a troca de todos os canos, entendi como esvaziar o porão da casa de máquinas que tinha de água, e acompanhei o djibe louco que estourou o preventer depois de uma quase colisão frontal com um navio babaca que não quis mudar de rumo apesar da nossa insistente sinalização e evidente preferência.

Se a princípio eu não tinha turnos noturnos, acabei tapando vários buracos quando dos meus colegas exaustos — por vezes por mais de 4 horas na madrugada.

Não conseguia mesmo dormir. Nem de noite, quando via a lua minguante com quem queria se casar o rato da música que cantei com a Marininha no dia anterior. Cansei de comer tapioca, pensando nas missões frustradas mas nunca inconclusas, que eu e a Laura cumprimos de acertar a forma da massa.

Arrisquei um diário em video, pra de algum jeito conversar com minha mãe sobre os sucessos da viagem e levar ela pra dentro do barco. E, depois de dobrarmos as esquina em cabo frio, passarmos pela Ponta da Joatinga, e eu ficar encarregada da roda do leme até a Ilha da Bexiga, ainda estava lá.

A gente veio junto e volta junto. O barco da minha vida tem o meu pai em cada parafuso. Todo clique fotográfico é um preito à nossa cultura familiar de fazer registros — e o diário de cada um tem um pouco de todo mundo.

Ao chegarmos à marina do engenho, ajudei a esticar os cabos sobre o cunho — e não foram os mesmos os pés que saltaram o vão entre a popa do barco e o flutuante. Se tem muito [muito] chão pra eu desvendar as razões de ser do Paratii2, ao menos agora eu sei que posso fazê-lo. Obrigada, pais — se sou criança nas vontades mas não nos compromissos, prometo tornar-los testemunhas de que consigo fazer o vão entre meus sonhos e o mundo terreno

mais pequeno.

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na verdade

Na verdade,

- Tamara

O sonho é um monte de neve guardado num potinho. Na minha jornada pela superfície da Terra, colecionei suspiros, vi derreterem-se tesouros e reguei a fé que eu mesma assassinei. Minhas utopias materializadas tornaram-se desilusões banais. E me perguntei se era assim que as estrelas morriam, se fazendo visíveis. Mas não. Algumas estrelas expostas na areia da praia podiam  viver, se devolvidas ao mar a tempo.

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cachorro africa do sul

Nota Sobre o Amor

- Tamara

Foi sequestrado em Paraty. Corria ávido pela praia do engenho e, ao nos ver, veio dar em cima. Aquela coisa de pedir carinho, se esfregar na perna e correr atrás do galho que a gente atira. Pelo estado, não tinha dono – enfiamos na caçamba da picape e pegamos estrada.

Paramos na cachoeira da estrada de Cunha. Foi lá o batizado e o banho de água doce pra tirar o excesso de lama com areia dos olhos. Água sagrada de Paraty, padrinho, madrinha e nome: Rufus.

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criancas jurumirim

Jurumirim

- Tamara

Éramos duas. Marininha e eu, sentadas no convés do Paratii2 com as pernas penduradas pra fora, olhando, ancoradas, a baía do Jurumirim.

Naquela mesma baía, muitas vezes assisti meu pai indo ou vindo de algum lugar feito de história malucas, animais estranhos e quase-desastres.

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Paraty

- Tamara

Por 6 anos, meu objetivo na vida foi um só. A pele descascada nos meus ombros queimados era prova da minha dedicação para catar conchinhas. Em formato de borboleta, em cor de rosa, estreladas, enroladas e chatas, elas íam para o museu particular que eu tinha no quarto.

Aprendi a reconhecer lugares pelo formato, cor e espessura desses presentes da água. Em Paraty eram pequenas e arredondadas, em São Francisco do Sul, eram mais finas e compridas; no pantanal, marrons e quase esféricas(onde os tuiuius enfiavam o bico), na Antártica, pareciam pirâmides azuladas.

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