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	<title>Irmãs Klink &#187; Diário de bordo</title>
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		<title>O Mundo em Poucas Linhas</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 10:18:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[-Tamara Escrevo como uma draga come o fundo de um canal. E come um rio, e come um fundo de mar inteiro. É meu tempo que drago ferozmente, ao tatuar meus dias nos maços de papel. Escrevo anos há anos, mesmo sem ter vivido tantos assim. E eu já sei: jamais lerei um quinto do [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">-Tamara</p>
<p>Escrevo como uma draga come o fundo de um canal. E come um rio, e come um fundo de mar inteiro.<br />
É meu tempo que drago ferozmente, ao tatuar meus dias nos maços de papel.<br />
Escrevo anos há anos, mesmo sem ter vivido tantos assim. E eu já sei: jamais lerei um quinto do que escrevi.<br />
Isso porque ao ler o passado eu não me reconheço. E pois não quero admitir que nele eu me vejo demais.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5184"></span><br />
Não suportaria saber que em tantos anos eu erro as mesmas crases, largo incompletas frases, repito as palavras preferidas e tendo a rimar rimas pobres sem razão.<br />
Eu tinha 8 anos quando minha mãe me disse assim:<br />
&#8211; Toma esse caderno em branco e escreva sobre o dia. TODO. DIA.<br />
E eu peguei o elemento de capa verde com glitter e um mini cadeadinho no canto e falei:<br />
-  Tá bom.<br />
Estávamos de férias em um veleiro a caminho da Antártica. E eu queria saber como nadavam os pinguins, se a never ao cair do céu tinha a forma de uma estrela. Eu era criança, mas precisaria orquestrar minhas vontades entre a aventura e a disciplina. Pela primeira vez na vida, eu recebia a missão ingrata de passar uma parte do tempo passando a limpo o que aconteceu. E o fiz. Com os anos, o desafio de escrever virou compromisso, e o compromisso virou um amor sem o qual eu não sei ser.<br />
Enquanto teço este texto que veste meus pensamentos, um painel de botões e números me conta os perigos do oceano. Vencemos onda a onda lentamente, e o vento nos puxa para longe da costa. Poderia durar pra sempre, eu penso, a ação de avançar sem fim. Um dia encerra a noite anterior, o sol nasce sobre a chuva e as nuvens grandes fazem a sombra passear no nosso barco. Mas o painel de instrumentos diz outra coisa: falta muito pra chegar, há pedras submersas no caminho, um navio avança em nossa direção e é tarde. Os números me dizem o que meu corpo não sente: estou há horas demais sem dormir.<br />
Algo me lembra de falar deste momento. Tento me decifrar como os números tentam decifrar o mar. Mas é difícil, pois o diário é um jogo de tradução e omissão. É preciso dar à lembrança o corpo das palavras. É preciso fazer um mundo caber em poucas linhas. E é preciso entregar a precisão ao esquecimento. O caderno tem folhas finitas, o papel pesa na mão, e o minuto descrito dura o mesmo que o minuto de escrever. Se tentássemos guardar tudo, o dia seguinte seria sempre o registrar do dia anterior até<br />
pararmos<br />
no<br />
tempo<br />
.<br />
.<br />
e os pinguins nadarem lá fora, a neve cair, e o dia escorrer como as estrelas de gelo escorrem pelo convés do barco, sem platéia.<br />
Eu me entrego ao desafio de me conter, apesar de saber que não lerei meus diários todos. Mesmo assim, cada um tem seu lugar na estante desse barco. Por déficit habitacional, alguns moram em puxadinhos sobre seus vizinhos. Outros, dormem entre seus pais e avós, bem apertados. Na minha ausência, a estante será o resumo das versões que eu assumi. Acumulo os cadernos de viagem como minha mãe guarda meus desenhos de criança com macarrão cru e massinha de modelar colada. Acumulo na tentativa inútil de conter o tempo. Incontinente.<br />
Enquanto minhas mãos me lembram que faz frio, e meus lábios trazem o sal do mar à boca, eu me dou conta de que o registro não fala do passado; pela sua própria natureza, ele fala de agora. Do que vêm à cabeça quando o sol ressurge atrás dos montes molhados, quando tememos enjoar ao encarar um ponto fixo, e quando estamos em guerra contra a tensão branca do papel. Por isso, não preencho os cadernos para lê-los um dia, preencho por preencher e os guardo como troféus de batalhas vencidas. Cada folha ocupada, um império. Quando estão em pilhas, cada um é diluído entre os semelhantes. Sozinhos, um único pesa mais que todos juntos.<br />
E o escrito mais pesado de todos é o que escrevo agora.<br />
Eu levei todos os textos da minha vida para escrever este. Pois o produto final de cada registro é o próximo registrar.<br />
Escrever diários é difícil por que todo dia tem uma chance de eternidade. E outra chance, ainda maior, de sumir para sempre. Ele pode ser lido por gerações ou pode se perder no caminhão de mudança. E é por isso que acumulamos tanta coisa tosca.<br />
Nunca esqueci uma reportagem da tevê sobre um jabuti reencontrado depois de 30 anos. A família do jabuti acumulou tanta coisa na casa que o animal se escondeu nos objetos e foi da infância para vida adulta sem ser notado. Numa faxina geral, ele foi achado vivo: uma pisadela e um beliscão do passado com presente. Como o texto no miolo dos cadernos de viagem, o bicho dentro da casca tem vida própria e passeia sozinho pelas casas das pessoas que o possuem.<br />
E isso nunca foi claro para mim até começar a publicar meus diários no meu canal do YouTube (youtube.com/TamaraKlink). O novo formato nasceu de um desafio: aprisionar palavras que estavam fora do meu controle. O tom do meu cansaço, do medo, do tédio profundo e da falta de assunto ao navegar. Alguns audios viraram vídeos, e do mar foram parar no ar. Escrevo agora, no invisível.<br />
Escrevo por escrever. Mas preciso admitir que mora em mim uma mini esperança que registrar vai frear o escorrer do tempo. Aqui, minhas preocupações são visíveis: o rumo, as pedras, os outros barcos. Eu estou exausta, e troco horas de sono por horas sonhando acordada. Me sinto sozinha, e converso com as ondas, comigo mesma, com amigos infinitos imaginados. Minha maior vontade é chegar, e meu maior medo é o fim da travessia. Por isso, crio um universo paralelo e controlado. Talvez assim seja possível represar nas minhas mãos o agora, conter cada instante nesta memória, e deixar aberta a porta do ontem pra quando quiser voltar.<br />
Não voltarei.<br />
E ao escrever, esqueço que drago o tempo de dentro pra fora, no canal, no rio, no mar profundo.<br />
Como o som das ondas lambendo o casco, o texto só existe enquanto for ouvido. E se quiser matá-lo, vire essa página. Para sempre.</p>
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		<title>Terra incógnita: Como viver no pior lugar do mundo</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 09:05:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Antártica]]></category>
		<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
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		<description><![CDATA[por Tamara Anúncio no auto falante, diz o capitão do navio: Vento a mais de 90 nós, passadiço interditado até que o tempo melhore, não saiam em hipótese alguma. Outro aviso vem em seguida, a voz do biólogo da tripulação: Pedimos para que os senhores mantenham a luz da cabine desligada para não atrair os [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Anúncio no auto falante, diz o capitão do navio: Vento a mais de 90 nós, passadiço interditado até que o tempo melhore, não saiam em hipótese alguma. Outro aviso vem em seguida, a voz do biólogo da tripulação: Pedimos para que os senhores mantenham a luz da cabine desligada para não atrair os petréis e albatrozes que voam perto da costa. Era tarde já, minhas irmãs e eu estávamos sozinhas na cafeteria montando quebra cabeça. A Europa estava completa, o Oceano Atlântico, o sul da África do Sul.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5130"></span> Faltava a Antártica ainda inteira e tudo abaixo da convergência convergia para um grande e entediante encaixar e desencaixar de pecinhas até que as peças sempre brancas tapassem os buracos vazios. Logo notamos que sobravam poucas peças soltas e eram muitos os espaços a preencher, e, cansadas, fomos para a cabine dormir. Continuamos amanhã, pensei. E deixamos o mundo na mesa meio pronto pra sabe-se lá qual nunca.</p>
<p>A cabine foi acesa pelo sol do dia seguinte. Tentei ver pela janela a paisagem da baía. A vista era censurada por uma neblina espessa, vestindo de noiva a praia de Grytviken. Não precisava ver pra saber: centenas de pinguins nos esperavam. Reis gritavam calorosamente na esperança de que seus filhos reconhecessem sua voz e indicassem a localização do ninho. E nós, meros súditos da natureza austral, esperávamos sua autorização pra desembarcar em terra.</p>
<p>O caminho de bote foi uma linha reta. Cordilheiras abraçavam a piscina de mar onde o navio estava atracado, e, lá na frente, a cidade baleeira se espalhava sobre um altar plano e extenso. Grytviken foi a primeira e mais longeva cidade baleeira da Geórgia do Sul. Construída por noruegueses em 1904, ela foi feita para operar em terra. Dois riachos cortavam o terreno e davam à cidade água doce, energia hidroelétrica e limites, coisas nem sempre fáceis de encontrar.</p>
<p>Chamou minha atenção o tamanho dos tanques de óleo, a distância entre as casinhas e a quantidade de construções. Todas ruínas de um período &#8216;próspero&#8217; e insustentável em que a baleia alimentou a economia das primeiras cidades grandes.</p>
<p>Andar pela cidade era como andar pelo corpo de um gigante. Sua boca era o pátio de esquartejamento. A rampa, logo em frente, era a língua que trazia para terra a carcaça capturada nos navios. Nesse pátio, os baleeiros a mediam, a rasgavam e separavam seus pedaços. Carne na câmara fria, gordura na esteira, mandíbula e barbatana na cozinha de ossos. Desde 1909, com a política do aproveitamento total, todas as suas partes tinham destino garantido. A carne servia para alimentar os habitantes da cidade ou virava ração animal. Os ossos e barbatanas viravam botões, pentes, espartilhos, raquetes de tênis. A gordura era processada para a extração de óleo, e por muitos anos manteve as ruas de Londres e Paris iluminadas.</p>
<p>Para que esse corpo urbano vivesse, era necessária grande mão de obra. Como em um intestino, as habitações dos trabalhadores eram divididas em duas partes. Na primeira ficava alojada a maioria dos baleeiros e trabalhadores, em dormitórios compartilhados. Na outra parte, mais afastada, ficava a casa do gerente da estação e um hotel para visitantes. Esse órgão de moradia tinha seu funcionamento auxiliado por vários outros. Um grande refeitório, um hospital, dentista, igreja, cinema e quadra de futebol. No inverno, tinha também pista de esqui e num rabo, distante da cidade, dormia o cemitério. Havia também acomodações para animais: porcos, renas e galinhas faziam parte do cardápio desses homens.</p>
<p>A vida em Grytviken era tão diferente da minha que por vezes era difícil acreditar que existiu. Minhas mãos ardiam de frio, e eu tinha dificuldade de andar com as botas de borracha tanto tempo. As condições climáticas hostis, entretanto, não impediram que essas pessoas jogassem futebol ou fossem ao cinema, pensei até, talvez ali ainda não fosse o fim do mundo.</p>
<p>Quando as baleias se tornaram poucas. Quando a economia mundial trocou óleo por petróleo. Quando o insustentável virou insuportável. Os baleeiros desligaram as máquinas e saíram de casa acreditando um dia voltar. Talvez quando as baleias voltassem. Nunca voltaram.</p>
<p>Há dez anos, os mais numerosos habitantes dessas casas eram renas e ratos. Hoje são focas de pelo, elefantes marinhos e guias de turismo, que o governo da Geórgia do Sul tenta preservar.</p>
<p><a href="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/P2-na-geórgia1.jpeg" class="lightbox" rel="galeria_5130"><img class="alignnone size-full wp-image-5133" src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/P2-na-geórgia1.jpeg" alt="P2 na geórgia" width="2000" height="1333" /></a></p>
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		<title>Navios são cidades provisórias</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:59:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara Os corredores do navio eram extensões das ruas da cidade. O barco deixava o cais com a dificuldade de uma criança que começa a desmamar. Se da cidade bebeu água limpa, provisões e combustível, agora, feito uma criança grande, partia só e lentamente, sem ter como ser carregado. Em Ushuaia, as ruas e [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Os corredores do navio eram extensões das ruas da cidade. O barco deixava o cais com a dificuldade de uma criança que começa a desmamar. Se da cidade bebeu água limpa, provisões e combustível, agora, feito uma criança grande, partia só e lentamente, sem ter como ser carregado.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5125"></span></p>
<p>Em Ushuaia, as ruas e corredores brotavam do mesmo olho d’água que era o porto. Nele a cidade nasceu e pra ele estava virada inteira. Dos mirantes presos ao barranco, dos degraus das suas calçadas inclinadas, era a vista mais instigante o edifício flutuante. Ele dormia no ancoradouro. Logo eu dormiria nele.</p>
<p>Enfiei meu cartão magnético na fenda leitora de cartões magnéticos e esperei a luzinha verde aparecer pra poder entrar na cabine. Uma fila de pessoas levando malas-tamanho-mudança fazia pressão para eu dar espaço na passagem estreita. Vermelha, vermelha, nada de luz verde, isso tinha que acontecer bem agora! Estacionei nossas malas no corredor e corri em direção à recepção, deixando pra trás um estrangulamento na via principal. Escada ou elevador? Me arrependi de ter escolhido a escada porque eram muitos os andares até lá.</p>
<p>Desci um lance, três, doze e me vi num pátio industrial escuro em frente a botes de borracha, motores desmontados, garrafas de óleos e peças sujas. Para então na minha frente um sujeito vestido com macacão azul e fones anti-qualquer-som-do-planeta e, antes que eu pudesse entender o seu figurino, ouço um som rouco e ensurdecedor que fazia tremer o chão. Gritei em silêncio com os lábios e as mãos “What’s this?” Era o som dos motores ligados. Naquela tarde, era o som da partida.</p>
<p>Subi dois pavimentos e encontrei novamente o carpete azul marinho que gramava os ambientes servidos aos passageiros. Passo por um homem sentado no chão com cara de mar. Uma mulher com um carrinho de bebê vazio falava ao telefone em língua desconhecida. A dupla de homens de colete de moletom e walkie-talkies andava com os olhos sobre pranchetas e desviava de mim, que desviava de um bebê sentado numa piscina de creme de milho na frente da recepção. Pode escanear de novo esse atestado…os dois comprimidos são do dia e à noite são…tenha paciência, é a quinta vez que eu falo…acho que cai o presidente antes da final…Miss. Miss. Is there anything I can help you with? A chave! Peguei a tal, desviei do bebê e voltei a derivar pela malha acarpetada do navio.</p>
<p>No terço da frente do barco estavam os espaços comuns. No restaurante, no café, no bar, nos sofás de ficar observando o mar, pessoas liquidificavam suas histórias de tempos e lugares variados. Era completamente diferente da zona exclusivamente residencial dos quartos. Fria, vazia e sem graça, ela esta era acessada por um corredor central que parecia um longo túnel de portas. Nele, estavam as três malinhas e, em posse da chave certa, enfiei-me na cabine com elas todas.</p>
<p>Fechei a porta dos 10 metros quadrados com banheiro incluso. Sentei no sofá-cama-prateleira-porta imã de geladeira e fiquei pensando em como tornaria aquela caixa estéril um refúgio pra três pessoas. A luz do sol argentino desenhava no carpete azul a forma circular da esquadria. A minha irmã pisou no desenho do chão sem vê-lo e gritou para irmos ver a desatracação.</p>
<p>Corremos pelo corredor perimetral aberto e vimos no cais os moços que soltavam cabos que soltavam o porto, tornando a extensão da cidade uma cidade em si. Ao deixar a plataforma, o navio se tornara provedor da própria infraestrutura. Água, energia e comida deviam ser geridas ou produzidas a bordo, numa temporária e aparente autossuficiência.</p>
<p>Começou a escurecer do lado de fora e dentro de mim. No vento salgado, eu assistia as luzes de Ushuaia se “miudecerem” na saída do canal até até. Ouvia o estalo melado da sucção das ondas lambendo o casco, e as vozes abafadas por música, por distância e por paredes com várias camadas. O nosso embalo era suave apenas enquanto estivéssemos abrigados. Éramos uma casquinha de noz no oceano.</p>
<p>Entrei para tomar sorvete com sabor de letras grudadas norueguesas e cobertura de dulce de leche. Pensei que não importava se estávamos no mar báltico, no cabo da boa esperança ou nos canais chilenos. Poderíamos estar em qualquer um deles: as barreiras entre os lugares eram a capacidade do barco de existir sozinho e a vontade do capitão de nos conduzir.</p>
<p>Os navios são cidades provisórias, que deslocam e são deslocados por pedaços de outras cidades. A elas confinam, a elas recriam aos moldes das conversas com suas escalas. Dormi na cabine, que não parecia mais ser tão pequena. No meio do mar, cabia um mundo inteiro.</p>
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		<title>Capuccinos e Condomínios</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:56:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; por Tamara O certo seria ter levado a chave pra disfarçar o fingimento. Mas com duas batidinhas na quina da dobradiça e uma empurrada torta na maçaneta, a porta trancada se abriu. Olhei em volta, acenei para o guarda da rua e entrei na casa da minha avó pontualmente 15 minutos atrasada. Suas amigas [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>O certo seria ter levado a chave pra disfarçar o fingimento. Mas com duas batidinhas na quina da dobradiça e uma empurrada torta na maçaneta, a porta trancada se abriu. Olhei em volta, acenei para o guarda da rua e entrei na casa da minha avó pontualmente 15 minutos atrasada.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5114"></span></p>
<p>Suas amigas já estavam à mesa, rodeando pães, bolos, xícaras estampadas e coisas que uma avó poria sobre uma mesa ao preparar um encontro para amigas. Oi oi oi, sim, passa rápido, obrigada. Puxei a quarta cadeira e fui envolvida pela discussão. Ela disse que vai me levar pra Itu, pra eu morar num… a senhora, que vamos chamar de I.T., hesitou … numa espécie de condomínio.</p>
<p>Minha avó deu risada. Ela cortava a quina de um sachê individual de cappuccino com uma tesourinha que era guardada dentro do pote de sachês individuais de cappuccino. Interrompeu o procedimento e ergueu os olhos. E o que você respondeu?</p>
<p>I.T.: Disse que pra lá eu só ia no caixão.</p>
<p>Minha avó cortou o riso. Disse H.F.: É mesmo uma questão delicada. Que Deus me perdoe, mas parece que numa certa idade tudo que as filhas querem é mandar a mãe para um depósito de velhinhas em um feudo bucólico longe de São Paulo.</p>
<p>I.T.: A Carmem ficou tentando me convencer… Disse que lá eu também ia poder ir à missa porque dentro do condomínio tem igreja que dá pra ir à pé, que tem um mercado ótimo, e que eu ia fazer amigas porque um grupo de senhoras se reúne diariamente pra conversar, caminhar e fazer atividades. Para eu não me preocupar, que sozinha eu não ficava, muito pelo contrário, e que lá eu ia ter tudo igual, só que melhor e com segurança. Mas não é isso, entendem? É alguma outra coisa que falta.</p>
<p>H.F.: Ai ai, IT. De que adianta ter tudo e não ter ninguém? De que vale morar numa casa linda com jardim, piscina e vista sem ter história ali? Ave Maria, isso me lembra a casa da Marisa em Ubatuba. Toda chique, de arquiteto famoso, disse que agora, no fim da vida, que estava usufruindo do sonho. Foi ela ficar dois meses na casa que entrou em depressão. Nem sei que fim levou, coitada. Mas não adianta. O arquiteto bambambam pode fazer milagre, ela pode morar perto de tudo e fazer mercado à pé, pode ter vista, ouvir passarinho, uma maravilha. Mas, no fim da vida, tudo que a gente quer não dá pra construir, Meu Deus. São nossos cantinhos e nossas migalhas. Pode passar uma fatia fininha do bolo, queridinha? Desse não, o de côco é sua avó que gosta, o meu é o Formigueiro.</p>
<p>Cortei a fatia mais fina que pude. Percebendo a minha dificuldade I.T. falou pra mim baixinho: “Ela pede a fatia fina só pra poder repetir várias vezes”. Minha avó trouxe da cozinha um bolo com recheio e cobertura, certa de que ele animaria o encontro. Arquitetura das camadas construíveis, do des-acaso que pretende-se criador de acasos. Não era isso que falavam elas. Não era o bolo, a questão, mas os quatro furos que assinalavam a passagem de um garfo pra checar o cozimento. Afinal, os espaços de transição não são autores da travessia, os espaços de convite não dão a festa, a preservação dos prédios não preserva a saudade, decerto. Pois que, para elas, o morar não era o edifício, o programa ou qualquer coisa projetável dessa instância. Era, sim, outra coisa: algo entre a porta que se vê trancada e o segredo de quem fez os seus segredos, algo entre o prazer de tomar o cappuccino e a mania de guardar sachês no mesmo pote que a tesoura. Eu não tinha, por sinal, tomado o meu, e frio ele não era igual a quente. Mas tinha um outro gosto e um outro calor, calor de encontrar-se a se encontrar no repente de uma mini festinha no fim de tarde de uma quinta-feira qualquer.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Daqui-sets.jpg" class="lightbox" rel="galeria_5114"><img class="alignnone size-medium wp-image-5116" src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Daqui-sets-300x103.jpg" alt="Daqui sets" width="300" height="103" /></a>   <a href="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Daqui-sets4.jpg" class="lightbox" rel="galeria_5114"><img class="alignnone size-medium wp-image-5119" src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Daqui-sets4-300x103.jpg" alt="Daqui sets4" width="300" height="103" /><img class="alignnone size-medium wp-image-5118" src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Daqui-sets3-300x103.jpg" alt="Daqui sets3" width="300" height="103" /><img class="alignnone size-medium wp-image-5117" src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Daqui-sets2-300x103.jpg" alt="Daqui sets2" width="300" height="103" /></a></p>
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		<title>Terra incógnita: a construção da cidade industrial na Geórgia do Sul</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:51:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara Até hoje é estranha a história desse lugar. Quem o descobriu? Quem ali viveu? De quem foi a ideia estúpida de usar uma cadeia de montanhas pontudas, distante de qualquer coisa e emersa nas mais piores condições climáticas possíveis, para criar grandes cidades industriais? E por ser tão improvável a ocupação humana na [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Até hoje é estranha a história desse lugar. Quem o descobriu? Quem ali viveu? De quem foi a ideia estúpida de usar uma cadeia de montanhas pontudas, distante de qualquer coisa e emersa nas mais piores condições climáticas possíveis, para criar grandes cidades industriais?
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5110"></span></p>
<p>E por ser tão improvável a ocupação humana na Geórgia do Sul, sua história é breve e simples.</p>
<p>Teria sido encontrada em 1675. Um navio que ia do Chile para Londres foi carregado por tempestades durante vários dias, até se aproximar de uma porção de terra não cartografada. O comandante Antoine de la Roché não desembarcou. Permaneceu ancorado duas semanas e prosseguiu a viagem. Sem.Mais.</p>
<p>Oitenta e um anos depois, mais um navio chega lá por acidente. Os ventos e correntes do Cabo Horn fizeram o Espanhol <em>Léon</em> mudar radicalmente sua rota. Passou perto e partiu, também, sem pisar em terra.</p>
<p>Só em 1775 alguém mais ou menos intencionalmente a encontraria. O inglês James Cook já havia feito a primeira circum-navegação do planeta quando foi enviado pelo Rei George III para aquela que seria a primeira Expedição Antártica. Queria encontrar a Terra Incógnita, uma grande massa de continente que, segundo Aristoteles (e depois Ptolomeu), faria o contrapeso das massas de terra encontradas no hemisfério norte do globo. Um dos dois navios da expedição, o <em>Resolution</em>, consegue chegar à região e a batiza com o nome do patrocinador da viagem. O que Cook não esperava, entretanto, era que o continente que havia encontrado fosse tão pequeno. Costeia a Geórgia, faz desembarques e dá nome a várias baías até chegar ao ponto mais austral e perceber que não estava na Antártica, mas em um fiapo de terra que era o arquipélago. Desconcernado, nomeia o extremo sul da Geórgia de Cape Disappointment. E volta para a Inglaterra com o comunicado do fracasso e a conclusão de que o lugar, hostil como era, não possuía potencial econômico algum.</p>
<p>Logo a costa da Geórgia estaria coalhada de foqueiros. Animados pela ideia de dobrar a temporada de caças que faziam no norte, e com menos concorrência, eles caçaram as focas de pelo até o quase extermínio da população. Mais tarde, caçariam elefantes marinhos. Foi um período de sucesso para os foqueiros. Trabalhavam ali por meses. Mas, na cadeia de montanhas expostas constantemente a tempestades e ventos catabáticos, parecia impossível permanecer. E, muito menos, na Georgia do Sul fazer cidade.</p>
<p>Isso só aconteceria em 1904. A caça às baleias é proibida na costa de Finnmark, e os Noruegueses começam a explorar o hemisfério Sul. O capitão e baleeiro C.A. Larsen vai até a baía de Grytviken e escolhe construir ali as primeiras instalações de uma nova indústria baleeira. Outras cinco indústrias surgiriam nos anos seguintes (Leith Harbour — 1910; Ocean Harbour/atual Fortuna Bay — 1909; Husvik Harbour — 1907; Stromness Harbour — 1907; Prince Olav — 1911). Essas estações passariam por várias ondas de sucesso e fracasso, mas não cabe nesse texto tratar delas a fundo posto que o leitor, na tela do celular ou computador, provavelmente não terá oxigênio para mergulhar num texto de grandes profundidades. (Se eu estiver errada, leitor(a), comente)</p>
<p>Mas, para encurtar a história, pularemos para os últimos capítulos do declínio da caça na Georgia, em que as últimas estações sobreviventes, Grytviken e Leith, param de funcionar. E só. Em 1963 e 1964, os noruegueses desligam as fábricas, fecham as janelas, trancam as portas das casas e vão embora, deixando pra trás as cidades baleeias com a certeza de que as baleias jamais voltariam a ser a gasolina da humanidade.</p>
<p>Na última vez que estive em Grytviken, ainda podíamos entrar nas casas dos baleeiros. Andei com meus pais em um antigo galpão de processamento e tiramos uma foto ao lado de um dos tambores de armazenamento de óleo, que tinha a altura de um prédio de dez andares. As casas, meio sem porta, os tambores de aço carcomidos pelos ventos, pela neve, pelo tempo. E tudo que conseguia pensar era: como alguém conseguiu viver aqui?</p>
<p>É o tema do meu próximo texto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Bibliografia e Referências:</p>
<p><strong>Basberg</strong>, Bjorn L. THE SHORE WHALING STATIONS AT SOUTH GEORGIA — A STUDY IN THE ANTARCTIC INDUSTRIAL ARCHAEOLOGY. Novus Forlag. Oslo, 2004.</p>
<p><strong>Burton</strong>, Robet. SOUTH GEORGIA. The Commissioner, South Georgia and The South Sandwich Islands, 2a edição, Towcester, 2005.</p>
<p><strong>Strange</strong>, Ian J. A FIELD GUIDE TO THE WILDLIFE OF THE FALKAND ISLANDS AND SOUTH GEORGIA. Harper Collings, 1a edição. Londres, 1992.</p>
<p><a href="http://www.gov.gs/">http://www.gov.gs</a> — site oficial do Governo da Geórgia do Sul e Ilhas Sandwich do Sul mantido pelo Governo Britânico</p>
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		<title>Cedo ou tarde, vamos ter que admitir: o pó existe</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:48:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara No carro há mil horas. Marininha já me provocava se espalhando pelo banco de trás, a linha de frente da coxa avançando sobre o risco divisório entre o campo do meu banco e campo do banco dela. Eu não levantaria a voz tão cedo. Foi minha ideia fazer a família atravessar a Namíbia [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>No carro há mil horas. Marininha já me provocava se espalhando pelo banco de trás, a linha de frente da coxa avançando sobre o risco divisório entre o campo do meu banco e campo do banco dela. Eu não levantaria a voz tão cedo. Foi minha ideia fazer a família atravessar a Namíbia de carro. A Laura dormia profundamente com a bochecha esquerda enterrada no vidro e o pé esquerdo na minha perna direita. Aguenta. Mais um pouco e chegaremos a algum lugar com gente.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5107"></span></p>
<p>Bonita, mas a vista cansava a vista. Enquanto a centopéia do nosso trajeto crescia na tela do GPS, a paisagem mudava quase nada. Era como navegar num oceano congelado de tão lento. As dunas do deserto da Namíbia, ondas imensas de cor laranja-incêndio. Nosso carro, um barco microscópico sem chance de mudar o rumo. Um caminhão, um antílope, uma placa de proibido-parar-zona-de-diamantes, só. A cabeça da centopéia começou a quase tocar a moldura da tela, e vimos saliências ortogonais e formas reconhecíveis nascentes da areia. Casas pequenas e casas grandes, telhados pra neve da Alemanha, pra cobrir pessoas da Alemanha e interesses da Alemanha em explorar diamantes no início do século passado.</p>
<div class="mceMediaCreditOuterTemp alignnone"><img class="size-medium wp-image-1153" src="http://www.esquina.net.br/wp-content/uploads/2018/01/janela-1-of-1-3-551x413.jpg" alt="" width="551" height="413" /></div>
<p>Saímos da clausura do carro pra andar pela cidade imersa no infinito. Ondas de areia lavaram portas e janelas de Kolmanskop. Tomou celeiros, quartos e salas de baile. Encheu banheiras onde europeus tomaram banho até esvaziarem das dunas os preciosos motivos de estar ali. Antes deles, apenas povos nômades moravam na areia. A imagem de dessa cidade responde por quê: o perigo de navegar em tempestade é querer parar o barco em ondas que se movem. As dunas se movem.</p>
<p>Deve ser isso que pensa o faxineiro do museuzinho de Kolmanskop, que hoje recebe visitantes entusiasmados. Obrigado a combater a natureza com uma vassoura e uma pá, ele nega o quanto pode que a cidade é mais fraca que o mundo. Mas olha ao seu redor e sabe: cedo ou tarde, teremos que admitir que o pó existe.</p>
<p>Voltei pro carro com areia nas fendas do tênis, conformada a me encaixotar por mais uma hora entre minhas irmãs. Só é possível cruzar o deserto em poucos dias se formos mais coisa e menos gente. Nos acostumamos a cercar lugares de paredes, cercar espaços de paredes, cercar corpos de corpos e de paredes, e a graça de cruzar linhas imaginárias e, incrível, voltar a vê-las e saber que, diante dos gigantes, paredes insistem.</p>
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		<title>O centro histórico de Paraty é o palco de um teatro sem fundo</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:46:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara E é nesse teatro que certa parte da cidade ganha pão, pois vende pão (e circo) pra platéia de inglês, francês, paulistano, carioca, e assim por diante. Patrimônio aham, preservadas as fachadas dos prédios do centro e um certo tanto do seu conteúdo. As gentes, essas sim, as gentes que ali moravam já [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div class="media-credit-container alignnone" style="text-align: right;">por Tamara</div>
<p>E é nesse teatro que certa parte da cidade ganha pão, pois vende pão (e circo) pra platéia de inglês, francês, paulistano, carioca, e assim por diante. Patrimônio aham, preservadas as fachadas dos prédios do centro e um certo tanto do seu conteúdo. As gentes, essas sim, as gentes que ali moravam já não se sabe que fim têm levado —  diz com nostalgia quem morou na rua do comércio, naquela de janela azul e verde, na corrente, na rua do mercadinho.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5104"></span>Ou se mora pra viver, ou se trabalha pra manter a casa tombada que custa uma fortuna. O centro esvazia no inverno. E isso nem é especial de Paraty: a gente sabe que nas nossas cidades de praia, só tem casa nos lugares descolados quem não trabalha alí. E estou mais que ciente de que componho a leva de habitantes fantasma que só aparecem nos feriados.</p>
<p>“É muito turista e a cidade não comporta”  — quem nunca pensou nisso que faça o primeiro comentário hater — pode ser uma fala elitista diante do custo relativamente baixo para passar um fim de semana num lugar paradisíaco. Mas é uma fala que tem um certo sentido já que a maior parte da cidade não tem tratamento de esgoto. Nas marés mais altas, a água do mar ainda invade as ruas do centro e carrega lixo pro mar, aquele lixo urbano que a gente conhece bem. Não há sistema de tratamento de esgoto e, em alguns lugares, o lençol freático é tão alto que construir fossa séptica não é opção. Culpa dos moradores jogar esgoto no rio? No mar? No lençol freático? Não, penso que não. Mas vou confessar aqui que também não sei de quem é. Chuto que é o poder público, mas vai saber o que isso quer dizer.</p>
<p>E talvez os turistas (eu, inclusive) e moradores até se contenham com um cheirinho ruim aqui, umas tartarugas sufocadas de plástico ali. Mas difícil ignorar aquele constante friozinho na barriga ao passar por uma rua vazia e mal iluminada sabendo dos dados do Mapa da Violência de 2016. A gente acha que a situação no Rio está grave com 13,1 homicídios para cada 100 mil habitantes. Pois bem, a cidade Paraty, constantemente lembrada como pacata e bonitinha está saindo dessa com 60,9 homicídios para cada 100 mil. Mas que coisa. Culpa das drogas, segundo as pessoas. Algumas que até consomem drogas. “Mas a droga que eu uso é mais suave, não é esse tipo tal”. Tá, tá, tá, prossigamos.</p>
<p>E se vamos falar de perigo, que tal lembrar dos célebres passeios de saveiro de dois andares que saem lotados do pontão todos os dias de sol? Não é necessário ter aulas de engenharia naval para saber que quando a gente transfere o peso de um joão bobo do pé pra cabeça, ele vira. Cinquenta reais/pessoa/dia vezes quantas pessoas couber em quantos andares for possível construir. Sugiro que se juntem a mim numa oração coletiva pra que nunca apareça um golfinho.<br />
“Falta educação”. Falta educação. “Falta investimento”. Não entendo de orçamento público, mas é uma hipótese a estudar. “Falta cultura”. Falta sim, cultura, mas mais que a nossa cultura de cinema cult de cidade grande, música clássica e literatura de prêmio Nobel uma vez por ano, faltam instrumentos pra quem quer, fazer a cultura própria da pessoa. E falta cultura ser um caminho que enobrece, enriquece ou, pelo menos, se sustenta. E não um caminho mais duro e mais difícil do que a própria vida já é. Mesmo assim, junta um daqui, um dali, a caixa de som emprestada, a bateria do primo, a câmera do celular, o estaleiro que virou nada e pronto. Fazem sim. É procurar pra achar.<br />
Minha paixão verdadeira é barco. Mas não vou falar das canoas tradicionais de Paraty, dos remos, que isso é coisa que já sumiu faz um tempo e pouca gente notou. Mesmo assim, parecem estar na água soluções para alguns problemas. As marinas crescem em número e porte, e empregam dezenas de pessoas competentes e excelentes. Também vem do mar peixes e frutos que fazem a gastronomia da cidade autêntica. São potências. Nem todo futuro é turvo, mas para alcançá-las, é preciso responder questões:</p>
<p>O que é preservar a fachada do centro histórico se as pessoas não são preservadas? Se a paisagem não é preservada? Se a cultura some das ruas e o esgoto surge no rio? O que quer dizer Patrimônio, onde há medo?</p>
<p>Chega mais um novo ano, mais sete ondas pra muito mudar. A peça está rolando e a coxia não da conta de esconder os contra-regras. A cena e o cenário não combinam e estão passando outra demão de cal. Tem quem atua, quem assiste, quem vende pipoca e quem tem uma ideia melhor. E você? Quer assistir o quê?</p>
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		<title>Por que Vitória detesta o Tubarão?</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:43:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Vitória]]></category>
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		<description><![CDATA[por Tamara Quanto vale estar numa cidade e poder ver o céu tocando o mar? Quanto vale abrir a janela e deixar entrar em casa o vento do oceano? Quanto vale acordar e respirar ar limpo? O grito dos remadores me acordou. Era 7 da manhã, e nosso veleiro estava ancorado em frente ao Iate [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Quanto vale estar numa cidade e poder ver o céu tocando o mar? Quanto vale abrir a janela e deixar entrar em casa o vento do oceano? Quanto vale acordar e respirar ar limpo?</p>
<p>O grito dos remadores me acordou. Era 7 da manhã, e nosso veleiro estava ancorado em frente ao Iate Clube do Espírito Santo. </p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5101"></span> Saí, pra ver as equipes de canoa havaiana, os windsurfs, os outros veleiros envolta do nosso. Eu moraria nesse lugar, pensei, ingênua.</p>
<p>Vitória me intrigou. Linda como poucas, mora perto do continente e é vizinha do oceano. Praias de água quente, calçadões pra passear, montanhas. Mas, ao andar, meus pés limpos estamparam pegadas pretas no chão. Partículas de um pó preto se espalhavam pelo barco. Impregnadas na cobertura, na vela, na janela. Dentro do pulmão. Passei a manter as janelas sempre fechadas, como fazem todos os capixabas pra controlar a sujeira que vem pelo ar.</p>
<p>Como outras cidades do Brasil, Vitória sofre as consequências da nossa estratégia econômica de exportação de minério bruto. De cara pra cidade está o Porto Tubarão, onde chegam navios de carvão e de onde saem, todo dia, parte dos maiores carregamentos de minério de ferro do mundo. Pedaços geográficos do nosso país. Partículas de minério e carvão vestem a cidade com um manto escuro. No mar, são comidas por moluscos. Comidos por pessoas. Pela gente.</p>
<p>As chaminés ardentes da mineradora redesenham o horizonte. Braços do complexo portuário, esteiras, navios, preparados pra levar embora a riqueza mineral do nosso país. Com o minério, China, Europa, Japão, compram não apenas matéria prima: compram de nós a qualidade do ar, compram o vento nas casas, compram a vista, perdida.</p>
<p>Difícil estimar os benefícios do Porto pra Vitória. Empregos são gerados, decerto. Mas essa atividade cada vez menos precisa de mão de obra humana, e cada vez mais contrata pessoas especializadas sem que elas, necessariamente, morem ali. Além disso, minério acaba, um dia. Gera recursos financeiros pra gestão pública? Pode ser. Mas quanto recurso é necessário pra compensar o bem estar e a saúde das pessoas que moram no lugar?</p>
<p>Deixarei nessa cidade perguntas sem resposta.</p>
<p>Amanhã, nossa âncora será suspensa. Por último, vou levar nosso lixo pra terra, trazer água doce, frutas frescas, e sairemos daqui olhando só pra frente. Como fazem os grandes navios, partirei, carregando apenas o que a cidade teve de melhor. Enquanto tiver.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Seis desafios de morar em um veleiro</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:40:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
		<category><![CDATA[Paraty]]></category>

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		<description><![CDATA[por Tamara Cada vez mais me interesso pelas pessoas que moram no mar e pela forma como vivem. Deixar o trânsito da cidade, o ritmo urbano, a poluição e o estresse e viver entre o azul do céu e do oceano parece uma ideia sedutora para qualquer pessoa insatisfeita em morar entre asfalto e arranha-céus. [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Cada vez mais me interesso pelas pessoas que moram no mar e pela forma como vivem. Deixar o trânsito da cidade, o ritmo urbano, a poluição e o estresse e viver entre o azul do céu e do oceano parece uma ideia sedutora para qualquer pessoa insatisfeita em morar entre asfalto e arranha-céus. A cada dia eu encontro mais brasileiros que venderam casa, empresa, se demitiram e compraram um veleiro. Também já conheci quem decidiu construir o próprio. Algumas pessoas vão mais preparadas, outras menos. Mas, muitas vezes, descobrem depois que habitar uma casa flutuante vai muito além de velejar.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5098"></span></p>
<p>Perguntei para amigos velejadores quais são os maiores desafios de morar a bordo. Há muitas coisas que não sei e não vivi, e com certeza há muitas outras questões que não aparecem no texto. Mas talvez você se surpreenda os 6 principais desafios destacados a seguir:</p>
<p>1. A VIDA DO BARCO É QUASE TÃO IMPORTANTE QUANTO A SUA PRÓPRIA<br />
A liberdade é uma condição relativa. Estar em um veleiro permite conhecer muitos lugares, mas isso só é possível se o barco está preparado. O tempo todo coisas quebram, o tempo todo há manutenção, trocas e concertos. Segundo o velejador Bruno Morino, do Speranza, o tempo que se passa arrumando o barco é pelo menos 5x maior do que se passa velejando, mesmo se o barco é novo. Para a velejadora Carina Joana, do Criloa, se tem liberdade para decidir como usar o tempo, mas isso não significa que há ócio. A vida a bordo pede um grande volume e diversidade de fazeres.</p>
<p>2. A ÁGUA TEM PESO, VOLUME E FIM<br />
Os recursos são finitos, e toda a infraestrutura existente é gerida pelos habitantes do veleiro. Existem algumas formas de lidar com a limitação de água: Usar calhas para captar chuva, ligar um dessalinizador, tomar banho no mar (ou não tomar), encher galões com água de rios, nascentes ou geleiras, depender de marinas para abastecimento. Mas seja qual for a solução, é consenso que o volume de água disponível/consumida define a autonomia de um barco. O racionamento é uma condição natural, e a forma de enfrentá-lo é de livre escolha e dependem dos recursos financeiros, da criatividade e da capacidade da pessoa de se adaptar às necessidades.</p>
<p>3. GERIR A ENERGIA DO BARCO E A PRÓPRIA<br />
Quem mora em barco presta atenção no consumo energético de tudo. Dos aparelhos elétricos ao consumo do próprio corpo. Como me disse o Bruno, é extremamente importante se planejar para que o seu consumo seja compatível com sua capacidade de produção e armazenamento.</p>
<p>As fontes de energia elétrica podem ser painéis solares, geradores a diesel ou eólicos, e as baterias precisam de atenção. Muitos velejadores não têm geladeira, e encontram alternativas para conservar os alimentos. Fiquei fascinada com as conservas de vinagre que o Elio Somaschini tinha no veleiro Crapun. Com elas, poderia comer legumes frescos mesmo após semanas no mar. Em uma travessia, também é importante saber gerir as horas de sono, uma vez que imprevistos estão na previsão.</p>
<p>4. ESTAR NO MESMO BARCO É ESTAR NO MESMO BARCO<br />
A velejadora Carina Joana mantém o Criloa sozinha. Quando se mudou para o barco, levou também a cadela Abigail. Morar com um animal só é possível porque a Abigail se comporta como tripulante: sabe onde ficar em cada situação, e usa colete ao andar pelo convés. Acredito que é importantíssimo que todas as pessoas (1) absorvam a cultura do barco, (2) se comuniquem com clareza, (3) sejam adaptáveis e (4) proativas. (5) Conflitos são normais, mas precisam ser passageiros. Quanto menor o barco, mais importante saber ceder e cooperar. Todas as pessoas podem ajudar, não importa a idade ou a experiência. No diário de viagem do veleiro Planckton, a Cecília e o Fábio contam que o filho, Igor, ainda era um bebê e já se oferecia para ajudar os pais. A postura preparada e proativa é bem vinda em qualquer pessoa.</p>
<p>5. CADA COISA MORA EM SEU LUGAR<br />
Debaixo da cama pode estar a dispensa. Atrás do sofá estão as peças de reposição. A quantidade de coisas que cabe em um veleiro é inacreditável. Mas cada objeto tem um lugar exato. Segundo a Carina, “Uma das grandes tarefas apresentadas pelo barco é descobrir o lugar de cada coisa. São meses trabalhando nessa descoberta e desenvolvendo a disciplina necessária para manter o barco em ordem e não competir espaço com as coisas.”</p>
<p>6. SABER LER E INTERPRETAR OS SINAIS DO AMBIENTE<br />
As nuvens dão a previsão do tempo. O vermelho do sol poente fala sobre a tempestade. Pelas ondas é possível ler o vento. A capacidade de pescadores de interpretar os sinais do meio pela observação é extremamente valiosa. Mas, além da experiência intransferível, ferramentas como barômetro, cartas náuticas, tábua de marés, cartas sinóticas, profundímetro e etc. são úteis e necessárias para navegar com segurança por lugares desconhecidos.</p>
<p>A Carina me contou: “O barco é espaço e é corpo ao mesmo tempo: é a casa de alguém, é também um corpo que habitará enseadas, cais, praias, caminhos e vai se relacionar de formas adaptadas à cada lugar e vizinhança.” E, sendo um corpo, o veleiro fala o tempo todo, “pelos os cabos batendo no mastro e esticando na proa, os motores que passaram longe mas cantam numa vibração suave no casco.” Ela aprendeu a entender o som da vida marinha se desenvolvendo no fundo do barco. “São muitos sons circulando quem está a bordo e conhecer cada um deles traz conforto e segurança.”</p>
<p>Se você tem o sonho de morar numa cidade flutuante, espero que essa lista te ajude a se preparar. Se não, espero que esse texto sirva para perceber que cada banho quente, cada legume fresco, cada lâmpada acesa com facilidade é um presente da viagem que é morar em terra firme.</p>
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		<title>O mundo cabe em um apartamento</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:36:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>

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		<description><![CDATA[por Tamara Pra ouvir o que minha tia dizia precisei chegar mais perto. Quando tomei café com o Papa João Paulo II, ah sim, meu amigo Alceu, no casamento não sei de quem, a nossa Revolução com outro nome que não era esse dos jornais de hoje… As fotos na mesa comprovavam os encontros. Nomes [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Pra ouvir o que minha tia dizia precisei chegar mais perto. Quando tomei café com o Papa João Paulo II, ah sim, meu amigo Alceu, no casamento não sei de quem, a nossa Revolução com outro nome que não era esse dos jornais de hoje… As fotos na mesa comprovavam os encontros. Nomes compostos, datas, lugares precisos. Tudo minha tia contava com detalhes de 90 anos nas costas e mil nos joelhos cansados, que tanto percorreram carpetes-cor-de-vinho. Mas pera tia, eu li no livro tal que…, Bobagem! Eu estava lá e não foi nada disso! Pare de acreditar nos historiadores que não leem além do feijão com arroz.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5094"></span></p>
<p>A brisa salgada de Ipanema entrava pela fresta e fazia as cortinas me chamarem pra sair. No Rio, gosto de turistar, e fico tirando foto do corcovado e vivo no Polis Sucos, vizinho do prédio. E eu podia ouvir o barulho dos liquidificadores. Quando ela terminar de falar eu desço, pensei como se assunto com tia Marina fosse coisa que acabasse.</p>
<p>Minha tia não saía, não. Desde a cadeira de rodas, cansou e não vai mais saber a praia a uma quadra dali. Como podia? Tão perto do mar e vizinha da lanchonete, não descer nem pra tomar fruta do conde?</p>
<p>Duas moças se revezam pra acompanhá-la na sua agenda de atividades. Jussara traz o pão e o jornal que ela lê todo-dia além de livros, revistas, documentos. Faz palavras cruzadas, recebe visitas, anda o corredor de 5m ida volta ida volta ida e senta na cama uffff. Lurdinha corta em fatias finas o pão do dia anterior, e põe na assadeira pra minha tia comer dormido e torrado, no café do dia seguinte.</p>
<p>Me pergunta da praia, como vai o novo museu velho, se é tudo que falaram na TV. Me pergunta da estação do metrô que decerto não vai usar. Anda bem, anda bem, um pouco confusa, mas deu certo. Mesmo tudo tendo visto mas quase nada na verdade, agora ela se contenta com a opinião dos jornalistas dos quais descrê. Uma sobrinha a chamou de Enciclopédia. Ofendida, respondeu na hora que não. Que se fosse dar pra ela um apelido, Google seria mais adequado.</p>
<p>O Rio foi ficando grande demais. E depois de conhecer tantas cidades, terminou construindo a própria, dentro do pequeno apartamento.</p>
<p>Não gosta muito de sair na rua, acho que cansa, ou só perdeu a vontade. O Rio não é mais aquilo… A distância confunde a memória também. E o Rio da televisão não é o mesmo das histórias que, de tanto a gente contar, acaba fazendo ter sido.</p>
<p>É difícil entendê-la. Difícil para quem ainda viveu pouco e acha que viveu muita coisa. Difícil pra quem anda um mundo procurando telas, entender quem viveu sem elas. Há pessoas que já sabem que nada sabem. Outras, saberão.</p>
<p>Teve de tirar um dente outro dia. Posto que não sai de casa por nem por nada, foi lá mesmo, no quarto, na cama, na mesa de cabeceira que o dentista ergueu o centro cirúrgico pra arrancar o molar esquerdo. Um dente a menos, um dente a mais, tanto tanto tanto faz. Toda infraestrutura necessária vai até ela, toda informação, toda (quase toda) gente, e o saber ela tem de monte até então. Tem diferença, afinal? Entre sair e ficar em casa? E tem, minha tia, tem graça?</p>
<p>Saber, e antes de voltar pra São Paulo dei tchau pra Jussara, e vi na camiseta dela escrito alguma coisa. Foi a sua tia que me deu, Tamara! Toda feliz ela esticou a blusa para eu ler “Conhecimento é liberdade”.</p>
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