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	<title>Irmãs Klink &#187; Antártica</title>
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		<title>Terra incógnita: Como viver no pior lugar do mundo</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 09:05:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara Anúncio no auto falante, diz o capitão do navio: Vento a mais de 90 nós, passadiço interditado até que o tempo melhore, não saiam em hipótese alguma. Outro aviso vem em seguida, a voz do biólogo da tripulação: Pedimos para que os senhores mantenham a luz da cabine desligada para não atrair os [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Anúncio no auto falante, diz o capitão do navio: Vento a mais de 90 nós, passadiço interditado até que o tempo melhore, não saiam em hipótese alguma. Outro aviso vem em seguida, a voz do biólogo da tripulação: Pedimos para que os senhores mantenham a luz da cabine desligada para não atrair os petréis e albatrozes que voam perto da costa. Era tarde já, minhas irmãs e eu estávamos sozinhas na cafeteria montando quebra cabeça. A Europa estava completa, o Oceano Atlântico, o sul da África do Sul.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5130"></span> Faltava a Antártica ainda inteira e tudo abaixo da convergência convergia para um grande e entediante encaixar e desencaixar de pecinhas até que as peças sempre brancas tapassem os buracos vazios. Logo notamos que sobravam poucas peças soltas e eram muitos os espaços a preencher, e, cansadas, fomos para a cabine dormir. Continuamos amanhã, pensei. E deixamos o mundo na mesa meio pronto pra sabe-se lá qual nunca.</p>
<p>A cabine foi acesa pelo sol do dia seguinte. Tentei ver pela janela a paisagem da baía. A vista era censurada por uma neblina espessa, vestindo de noiva a praia de Grytviken. Não precisava ver pra saber: centenas de pinguins nos esperavam. Reis gritavam calorosamente na esperança de que seus filhos reconhecessem sua voz e indicassem a localização do ninho. E nós, meros súditos da natureza austral, esperávamos sua autorização pra desembarcar em terra.</p>
<p>O caminho de bote foi uma linha reta. Cordilheiras abraçavam a piscina de mar onde o navio estava atracado, e, lá na frente, a cidade baleeira se espalhava sobre um altar plano e extenso. Grytviken foi a primeira e mais longeva cidade baleeira da Geórgia do Sul. Construída por noruegueses em 1904, ela foi feita para operar em terra. Dois riachos cortavam o terreno e davam à cidade água doce, energia hidroelétrica e limites, coisas nem sempre fáceis de encontrar.</p>
<p>Chamou minha atenção o tamanho dos tanques de óleo, a distância entre as casinhas e a quantidade de construções. Todas ruínas de um período &#8216;próspero&#8217; e insustentável em que a baleia alimentou a economia das primeiras cidades grandes.</p>
<p>Andar pela cidade era como andar pelo corpo de um gigante. Sua boca era o pátio de esquartejamento. A rampa, logo em frente, era a língua que trazia para terra a carcaça capturada nos navios. Nesse pátio, os baleeiros a mediam, a rasgavam e separavam seus pedaços. Carne na câmara fria, gordura na esteira, mandíbula e barbatana na cozinha de ossos. Desde 1909, com a política do aproveitamento total, todas as suas partes tinham destino garantido. A carne servia para alimentar os habitantes da cidade ou virava ração animal. Os ossos e barbatanas viravam botões, pentes, espartilhos, raquetes de tênis. A gordura era processada para a extração de óleo, e por muitos anos manteve as ruas de Londres e Paris iluminadas.</p>
<p>Para que esse corpo urbano vivesse, era necessária grande mão de obra. Como em um intestino, as habitações dos trabalhadores eram divididas em duas partes. Na primeira ficava alojada a maioria dos baleeiros e trabalhadores, em dormitórios compartilhados. Na outra parte, mais afastada, ficava a casa do gerente da estação e um hotel para visitantes. Esse órgão de moradia tinha seu funcionamento auxiliado por vários outros. Um grande refeitório, um hospital, dentista, igreja, cinema e quadra de futebol. No inverno, tinha também pista de esqui e num rabo, distante da cidade, dormia o cemitério. Havia também acomodações para animais: porcos, renas e galinhas faziam parte do cardápio desses homens.</p>
<p>A vida em Grytviken era tão diferente da minha que por vezes era difícil acreditar que existiu. Minhas mãos ardiam de frio, e eu tinha dificuldade de andar com as botas de borracha tanto tempo. As condições climáticas hostis, entretanto, não impediram que essas pessoas jogassem futebol ou fossem ao cinema, pensei até, talvez ali ainda não fosse o fim do mundo.</p>
<p>Quando as baleias se tornaram poucas. Quando a economia mundial trocou óleo por petróleo. Quando o insustentável virou insuportável. Os baleeiros desligaram as máquinas e saíram de casa acreditando um dia voltar. Talvez quando as baleias voltassem. Nunca voltaram.</p>
<p>Há dez anos, os mais numerosos habitantes dessas casas eram renas e ratos. Hoje são focas de pelo, elefantes marinhos e guias de turismo, que o governo da Geórgia do Sul tenta preservar.</p>
<p><a href="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/P2-na-geórgia1.jpeg" class="lightbox" rel="galeria_5130"><img class="alignnone size-full wp-image-5133" src="http://www.irmasklink.com.br/wp-content/uploads/2018/08/P2-na-geórgia1.jpeg" alt="P2 na geórgia" width="2000" height="1333" /></a></p>
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		<title>Navios são cidades provisórias</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:59:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara Os corredores do navio eram extensões das ruas da cidade. O barco deixava o cais com a dificuldade de uma criança que começa a desmamar. Se da cidade bebeu água limpa, provisões e combustível, agora, feito uma criança grande, partia só e lentamente, sem ter como ser carregado. Em Ushuaia, as ruas e [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Os corredores do navio eram extensões das ruas da cidade. O barco deixava o cais com a dificuldade de uma criança que começa a desmamar. Se da cidade bebeu água limpa, provisões e combustível, agora, feito uma criança grande, partia só e lentamente, sem ter como ser carregado.
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5125"></span></p>
<p>Em Ushuaia, as ruas e corredores brotavam do mesmo olho d’água que era o porto. Nele a cidade nasceu e pra ele estava virada inteira. Dos mirantes presos ao barranco, dos degraus das suas calçadas inclinadas, era a vista mais instigante o edifício flutuante. Ele dormia no ancoradouro. Logo eu dormiria nele.</p>
<p>Enfiei meu cartão magnético na fenda leitora de cartões magnéticos e esperei a luzinha verde aparecer pra poder entrar na cabine. Uma fila de pessoas levando malas-tamanho-mudança fazia pressão para eu dar espaço na passagem estreita. Vermelha, vermelha, nada de luz verde, isso tinha que acontecer bem agora! Estacionei nossas malas no corredor e corri em direção à recepção, deixando pra trás um estrangulamento na via principal. Escada ou elevador? Me arrependi de ter escolhido a escada porque eram muitos os andares até lá.</p>
<p>Desci um lance, três, doze e me vi num pátio industrial escuro em frente a botes de borracha, motores desmontados, garrafas de óleos e peças sujas. Para então na minha frente um sujeito vestido com macacão azul e fones anti-qualquer-som-do-planeta e, antes que eu pudesse entender o seu figurino, ouço um som rouco e ensurdecedor que fazia tremer o chão. Gritei em silêncio com os lábios e as mãos “What’s this?” Era o som dos motores ligados. Naquela tarde, era o som da partida.</p>
<p>Subi dois pavimentos e encontrei novamente o carpete azul marinho que gramava os ambientes servidos aos passageiros. Passo por um homem sentado no chão com cara de mar. Uma mulher com um carrinho de bebê vazio falava ao telefone em língua desconhecida. A dupla de homens de colete de moletom e walkie-talkies andava com os olhos sobre pranchetas e desviava de mim, que desviava de um bebê sentado numa piscina de creme de milho na frente da recepção. Pode escanear de novo esse atestado…os dois comprimidos são do dia e à noite são…tenha paciência, é a quinta vez que eu falo…acho que cai o presidente antes da final…Miss. Miss. Is there anything I can help you with? A chave! Peguei a tal, desviei do bebê e voltei a derivar pela malha acarpetada do navio.</p>
<p>No terço da frente do barco estavam os espaços comuns. No restaurante, no café, no bar, nos sofás de ficar observando o mar, pessoas liquidificavam suas histórias de tempos e lugares variados. Era completamente diferente da zona exclusivamente residencial dos quartos. Fria, vazia e sem graça, ela esta era acessada por um corredor central que parecia um longo túnel de portas. Nele, estavam as três malinhas e, em posse da chave certa, enfiei-me na cabine com elas todas.</p>
<p>Fechei a porta dos 10 metros quadrados com banheiro incluso. Sentei no sofá-cama-prateleira-porta imã de geladeira e fiquei pensando em como tornaria aquela caixa estéril um refúgio pra três pessoas. A luz do sol argentino desenhava no carpete azul a forma circular da esquadria. A minha irmã pisou no desenho do chão sem vê-lo e gritou para irmos ver a desatracação.</p>
<p>Corremos pelo corredor perimetral aberto e vimos no cais os moços que soltavam cabos que soltavam o porto, tornando a extensão da cidade uma cidade em si. Ao deixar a plataforma, o navio se tornara provedor da própria infraestrutura. Água, energia e comida deviam ser geridas ou produzidas a bordo, numa temporária e aparente autossuficiência.</p>
<p>Começou a escurecer do lado de fora e dentro de mim. No vento salgado, eu assistia as luzes de Ushuaia se “miudecerem” na saída do canal até até. Ouvia o estalo melado da sucção das ondas lambendo o casco, e as vozes abafadas por música, por distância e por paredes com várias camadas. O nosso embalo era suave apenas enquanto estivéssemos abrigados. Éramos uma casquinha de noz no oceano.</p>
<p>Entrei para tomar sorvete com sabor de letras grudadas norueguesas e cobertura de dulce de leche. Pensei que não importava se estávamos no mar báltico, no cabo da boa esperança ou nos canais chilenos. Poderíamos estar em qualquer um deles: as barreiras entre os lugares eram a capacidade do barco de existir sozinho e a vontade do capitão de nos conduzir.</p>
<p>Os navios são cidades provisórias, que deslocam e são deslocados por pedaços de outras cidades. A elas confinam, a elas recriam aos moldes das conversas com suas escalas. Dormi na cabine, que não parecia mais ser tão pequena. No meio do mar, cabia um mundo inteiro.</p>
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		<title>Terra incógnita: a construção da cidade industrial na Geórgia do Sul</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Aug 2018 08:51:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Tamara Até hoje é estranha a história desse lugar. Quem o descobriu? Quem ali viveu? De quem foi a ideia estúpida de usar uma cadeia de montanhas pontudas, distante de qualquer coisa e emersa nas mais piores condições climáticas possíveis, para criar grandes cidades industriais? E por ser tão improvável a ocupação humana na [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">por Tamara</p>
<p>Até hoje é estranha a história desse lugar. Quem o descobriu? Quem ali viveu? De quem foi a ideia estúpida de usar uma cadeia de montanhas pontudas, distante de qualquer coisa e emersa nas mais piores condições climáticas possíveis, para criar grandes cidades industriais?
</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-5110"></span></p>
<p>E por ser tão improvável a ocupação humana na Geórgia do Sul, sua história é breve e simples.</p>
<p>Teria sido encontrada em 1675. Um navio que ia do Chile para Londres foi carregado por tempestades durante vários dias, até se aproximar de uma porção de terra não cartografada. O comandante Antoine de la Roché não desembarcou. Permaneceu ancorado duas semanas e prosseguiu a viagem. Sem.Mais.</p>
<p>Oitenta e um anos depois, mais um navio chega lá por acidente. Os ventos e correntes do Cabo Horn fizeram o Espanhol <em>Léon</em> mudar radicalmente sua rota. Passou perto e partiu, também, sem pisar em terra.</p>
<p>Só em 1775 alguém mais ou menos intencionalmente a encontraria. O inglês James Cook já havia feito a primeira circum-navegação do planeta quando foi enviado pelo Rei George III para aquela que seria a primeira Expedição Antártica. Queria encontrar a Terra Incógnita, uma grande massa de continente que, segundo Aristoteles (e depois Ptolomeu), faria o contrapeso das massas de terra encontradas no hemisfério norte do globo. Um dos dois navios da expedição, o <em>Resolution</em>, consegue chegar à região e a batiza com o nome do patrocinador da viagem. O que Cook não esperava, entretanto, era que o continente que havia encontrado fosse tão pequeno. Costeia a Geórgia, faz desembarques e dá nome a várias baías até chegar ao ponto mais austral e perceber que não estava na Antártica, mas em um fiapo de terra que era o arquipélago. Desconcernado, nomeia o extremo sul da Geórgia de Cape Disappointment. E volta para a Inglaterra com o comunicado do fracasso e a conclusão de que o lugar, hostil como era, não possuía potencial econômico algum.</p>
<p>Logo a costa da Geórgia estaria coalhada de foqueiros. Animados pela ideia de dobrar a temporada de caças que faziam no norte, e com menos concorrência, eles caçaram as focas de pelo até o quase extermínio da população. Mais tarde, caçariam elefantes marinhos. Foi um período de sucesso para os foqueiros. Trabalhavam ali por meses. Mas, na cadeia de montanhas expostas constantemente a tempestades e ventos catabáticos, parecia impossível permanecer. E, muito menos, na Georgia do Sul fazer cidade.</p>
<p>Isso só aconteceria em 1904. A caça às baleias é proibida na costa de Finnmark, e os Noruegueses começam a explorar o hemisfério Sul. O capitão e baleeiro C.A. Larsen vai até a baía de Grytviken e escolhe construir ali as primeiras instalações de uma nova indústria baleeira. Outras cinco indústrias surgiriam nos anos seguintes (Leith Harbour — 1910; Ocean Harbour/atual Fortuna Bay — 1909; Husvik Harbour — 1907; Stromness Harbour — 1907; Prince Olav — 1911). Essas estações passariam por várias ondas de sucesso e fracasso, mas não cabe nesse texto tratar delas a fundo posto que o leitor, na tela do celular ou computador, provavelmente não terá oxigênio para mergulhar num texto de grandes profundidades. (Se eu estiver errada, leitor(a), comente)</p>
<p>Mas, para encurtar a história, pularemos para os últimos capítulos do declínio da caça na Georgia, em que as últimas estações sobreviventes, Grytviken e Leith, param de funcionar. E só. Em 1963 e 1964, os noruegueses desligam as fábricas, fecham as janelas, trancam as portas das casas e vão embora, deixando pra trás as cidades baleeias com a certeza de que as baleias jamais voltariam a ser a gasolina da humanidade.</p>
<p>Na última vez que estive em Grytviken, ainda podíamos entrar nas casas dos baleeiros. Andei com meus pais em um antigo galpão de processamento e tiramos uma foto ao lado de um dos tambores de armazenamento de óleo, que tinha a altura de um prédio de dez andares. As casas, meio sem porta, os tambores de aço carcomidos pelos ventos, pela neve, pelo tempo. E tudo que conseguia pensar era: como alguém conseguiu viver aqui?</p>
<p>É o tema do meu próximo texto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Bibliografia e Referências:</p>
<p><strong>Basberg</strong>, Bjorn L. THE SHORE WHALING STATIONS AT SOUTH GEORGIA — A STUDY IN THE ANTARCTIC INDUSTRIAL ARCHAEOLOGY. Novus Forlag. Oslo, 2004.</p>
<p><strong>Burton</strong>, Robet. SOUTH GEORGIA. The Commissioner, South Georgia and The South Sandwich Islands, 2a edição, Towcester, 2005.</p>
<p><strong>Strange</strong>, Ian J. A FIELD GUIDE TO THE WILDLIFE OF THE FALKAND ISLANDS AND SOUTH GEORGIA. Harper Collings, 1a edição. Londres, 1992.</p>
<p><a href="http://www.gov.gs/">http://www.gov.gs</a> — site oficial do Governo da Geórgia do Sul e Ilhas Sandwich do Sul mantido pelo Governo Britânico</p>
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		<title>Desencontro</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Aug 2016 22:46:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[-Tamara Aquele gesto fatal decerto melhor seria se mantido omisso, não fosse a indelicadeza gratuita em declarar, por intermédio de gerados, certas conquistas pessoais post mortem. Devido ao desejo de ambas as partes em manter supostas afinidades, parece-me custoso expor à luz da pena a semente do desconforto — embebido em conveniências. Faz-se necessária a ressalva de [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="graf--p graf-after--h3" style="text-align: right;">-Tamara</p>
<p id="65e7" class="graf--p graf-after--h3">Aquele gesto fatal decerto melhor seria se mantido omisso, não fosse a indelicadeza gratuita em declarar, por intermédio de gerados, certas conquistas pessoais <em class="markup--em markup--p-em">post mortem.</em> Devido ao desejo de ambas as partes em manter supostas afinidades, parece-me custoso expor à luz da pena a semente do desconforto — embebido em conveniências. Faz-se necessária a ressalva de que nada tenho contra o intermediador de tal notícia, o qual, ademais, parece-me gente de bem. Dessa forma, proponho-me a discorrer de tal modo que eu mesma possa digerir a causa de tal rodeio memorialístico.</p>
<p id="f487" class="graf--p graf-after--p"><span id="more-4975"></span>Ao que me lembro, não haviam outros barcos naquela baía rodeada de gelo. Não posso afirmar com absoluta certeza — posto que já são corridos 10 anos desde a data mencionada — mas era um desses lugares que sentem o odor humano poucas vezes num século. A nervosa voz do nosso comandante não deixava dúvida de que aquela era a última chance “Se querem mesmo deixar um tesouro, que o façam antes da partida nos motores”</p>
<p id="796d" class="graf--p graf-after--p">Mentindo estaria ao afirmar que me lembro do conteúdo do bem, afinal de contas, fizemos o tesouro às pressas, mas me é cristalino que foi, dentro do possível, criteriosa a seleção dos ícones do sacrifício e da alegria de estar lá. Algo como urso de pelúcia, fotos, rolo de filme não revelado, um dente caído na viagem, algum dinheiro e whisky, depositados com desenho e bilhete dentro da caixa pelican neon.</p>
<p id="396a" class="graf--p graf-after--p">A escolha do lugar foi pensada para não dar margem aos esforços da natureza subtraírem nossa coleção. Checamos a inclinação do solo, a chance de neve, a incidência solar e abandonamos, no ponto escolhido, a caixa laranja e a dúvida sobre jamais voltar pra resgatá-la.</p>
<p id="19f0" class="graf--p graf-after--p">E, de fato, voltamos três anos depois junto à ambição de encontrar nosso bem. A marcação de GPS, a identificação dos marcos de referência e os três dias de tentativa não foram o suficiente para o sucesso da operação de busca. “Devemos dar por encerrada a procura. Não adianta.” As três meninas — já não mais tão meninas — não criam nos pais; de certa forma estava ali o rastro de quando executar esse tipo de ideia tosca ainda fazia sentido.</p>
<p id="bf6d" class="graf--p graf-after--p">Era a viagem do achamento, que nunca ocorreu. E por anos frustrou-as o não encontro, ainda não sabiam, desencontro. Até uma tarde de sol em algum lugar como Ilhabela, onde veleiros voam trazendo notícias inesperadas. Mas não foi no mar, não, foi numa rua asfaltada qualquer que um homem cruzou com uma das meninas e disse:</p>
<p id="71ef" class="graf--p graf-after--p">— Meu pai, falecido, encontrou seu tesouro!</p>
<p id="eb70" class="graf--p graf-after--p">Como quem vê cair do céu um piano, a menina pos-se a pensar se o problema era ela ou o mundo. Era o mundo, que prosseguiu.</p>
<p id="c1f0" class="graf--p graf-after--p">— Ah, ele não entendeu a caixa e jogou as coisas fora. Tirando o dinheiro… e a garrafa de whisky.</p>
<p id="0393" class="graf--p graf-after--p graf--last">O valor de um tesouro não está no preço das coisas, mas na história que se atribui a ele.</p>
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		</item>
		<item>
		<title>Na verdade,</title>
		<link>http://www.irmasklink.com.br/na-verdade/</link>
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		<pubDate>Sat, 25 Jun 2016 21:25:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[- Tamara O sonho é um monte de neve guardado num potinho. Na minha jornada pela superfície da Terra, colecionei suspiros, vi derreterem-se tesouros e reguei a fé que eu mesma assassinei. Minhas utopias materializadas tornaram-se desilusões banais. E me perguntei se era assim que as estrelas morriam, se fazendo visíveis. Mas não. Algumas estrelas [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">- Tamara</p>
<p>O sonho é um monte de neve guardado num potinho. Na minha jornada pela superfície da Terra, colecionei suspiros, vi derreterem-se tesouros e reguei a fé que eu mesma assassinei. Minhas utopias materializadas tornaram-se desilusões banais. E me perguntei se era assim que as estrelas morriam, se fazendo visíveis. Mas não. Algumas estrelas expostas na areia da praia podiam  viver, se devolvidas ao mar a tempo.<span id="more-4969"></span></p>
<p>Nesta mesma areia, desenhei os veleiros que via partir. Sabia que encontravam gelo, neve, ondas gigantes e baleias maiores ainda, e me enfiava nos barcos através dos rabiscos que fazia ali. Desenhos, <i>desígnios</i>, intenções. E tais intenções foram &#8211; quase que magicamente &#8211; atendidas quando veio do pai um convite.</p>
<p>— Quer viajar comigo?</p>
<p>Minha Nossa. Tão nova na insciência de tentar entender o mundo, senti tangível a realização de um sonho. Era óbvio que eu queria ir &#8211; queria ouvir o timbre dos meus desenhos. Assim que a maré subiu, os projetos saíram do papel e se conformaram no veleiro que me convidara pra viajar.</p>
<p>Preenchi a meia eternidade do trajeto contando ondas, aves marinhas, e ripas* de madeira do teto da cabine. Na verdade, contei mais ripas do que qualquer outra coisa, dado o balanço do barco. Tendemos a vegetar quando a boca está sob a constante ameaça de receber o almoço vindo do estômago.</p>
<p>Não me sentia sozinha, muito pelo contrário. Tinha a impressão de que na minha cabine estavam todos os motores e bombas do barco, rugindo. A única forma de fazer o silêncio ser ouvido, o barco sair da embriaguez e as ripas fazerem jus à sua desimportância, era manter a fé de que o projeto seria construído.</p>
<p>Eu tinha o privilégio do tempo imensurável. O relógio era inútil se não para entender a altura do sol. A velocidade nada dizia sobre o progresso cartográfico, uma vez que tempestades podiam vir de repente. Por isso, pude passar dias compilando mentalmente as imagens estimadas da terra dos viajantes, sem saber o quanto elas me frustrariam.</p>
<p>Nessas imagens, o vento não era motivo de dor. Também não era penoso o trajeto. Não pensei que a perda de sentido nos dedos seria preocupante. Não chorei de frio. Eram outras as velocidades, as escalas. E entrava agora pelas minhas narinas, pela minha boca, pelos furos dos pelos do meu braço, um odor glacial. Seco. E me dei conta de que mais que tudo, meu sonho não tinha cheiro.</p>
<p>Ao pisar em terra firme, deixei meu sonho &#8216;concretar-se&#8217;. Toquei a neve e senti a frustração da mãe que vê crescer no filho autonomia. Meu projeto assumiu uma identidade que não previu meu traço.</p>
<p>Peguei um punhado de neve, uma mini monte. <i>A fé move montanhas</i>. E enfiei num potinho que trazia no bolso do casaco. Levaria meu sonho comigo, acontecido.</p>
<p>Dentro do barco, peguei o recipiente e o examinei antes de por na mala. Só tinha água. Sonhos realizados não os são. Abri a tampa e joguei o seu conteúdo no ralo da pia.</p>
<p>Não movi montanhas com minha fé &#8211; aquela mini montanha tinha me movido. E lembrei de jogar a estrela de volta pro mar pra dar a ela a chance de viver. Voltamos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>*ripas &#8211; tiras compridas e estreitas de madeira</p>
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		<title>Não queria ser criança</title>
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		<pubDate>Sun, 01 May 2016 21:42:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Antártica]]></category>
		<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Antartica]]></category>
		<category><![CDATA[crescer]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[Travessia]]></category>

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		<description><![CDATA[- Tamara Era um auditório de uns 70 lugares, cheio de seres humanos com uma mão e meia de anos. Falavam, no palco, três meninas de mais ou menos duas décadas sobre experiências vividas há uma e um livro escrito há meia. Uma das leitoras não entendia como as 3 palestrantes e as 3 crianças [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="p1" style="text-align: right;">- Tamara</p>
<p class="p1"><span class="s1">Era um auditório de uns 70 lugares, cheio de seres humanos com uma mão e meia de anos. Falavam, no palco, três meninas de mais ou menos duas décadas sobre experiências vividas há uma e um livro escrito há meia.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Uma das leitoras não entendia como as 3 palestrantes e as 3 crianças do livro podiam ser as mesmas pessoas. Não eram. Sem saber disso, declarou &#8220;queria que vocês fossem crianças&#8221;.</span><span id="more-4947"></span></p>
<p class="p1"><span class="s1">O &#8216;<i>Férias na Antártica</i>&#8216; foi fruto de diários, fotos, desenhos e invenções de meninas que descobriam a península de um continente em que poucos adultos pisaram. Tiveram o privilégio de sentir a monumentalidade e a inércia de geleiras quilométricas, e na apaticidade dessas geleiras, a força do seu próprio movimento. Imprimiram aquele sentimento num livro. Que contraditório. Marcar a sensação de eternidade com uma tatuagem no mercado editorial, um corpo que não é delas, até porque este ainda era (é) provisório. </span></p>
<p class="p1"><span class="s1">As consequências disso foram provadas logo. Viver implica estar eternamente em mudança, revendo coisas ditas, desconstruindo pensamentos e redigerindo a memória. Como eu poderia falar sobre um modo de ver o mundo que não me pertencia mais? Revi, desconstruí, redigerí, cresci. E as 3 meninas escritas perderam o corpo de gente para o de papel &#8211; e pensamento. </span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Negar o crescimento é recusar a abertura de portas, o levantamento de pontes, construção de eclusas &#8211; aqueles &#8220;elevadores&#8221; de barcos num canal. Aos poucos fui saindo, atravessando e subindo, e passei por lugares em que as tais meninas nunca estiveram. Apropriei-me delas para entender as experiências novas, roubei seus conhecimentos para entender os de outros, e rompi o movimento de encenação do passado pra atar a conciliação ao mesmo. Por isso não queria ser criança outra vez. Ainda há muito pra aprender crescendo.</span></p>
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		<title>Sublimação intransponível</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Apr 2016 17:07:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Antártica]]></category>
		<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[animais]]></category>
		<category><![CDATA[Antartica]]></category>
		<category><![CDATA[drake]]></category>
		<category><![CDATA[iceberg]]></category>
		<category><![CDATA[Paratii2]]></category>
		<category><![CDATA[Travessia]]></category>

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		<description><![CDATA[- Tamara Pra onde o Pacífico e o Atlântico pelo Sul conversam, damos o nome de Drake. O encontro, no veleiro, é medido em dias: 7, na vela, ou 3, no motor. Prefiro chamar de conversa do que de discussão. Às vezes, os dois oceanos brigam como pais e filhos falando de política. São dias [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="p1" style="text-align: right;">- Tamara</p>
<p>Pra onde o Pacífico e o Atlântico pelo Sul conversam, damos o nome de Drake. O encontro, no veleiro, é medido em dias: 7, na vela, ou 3, no motor.</p>
<p>Prefiro chamar de conversa do que de discussão. Às vezes, os dois oceanos brigam como pais e filhos falando de política. São dias de cama e jejum, sem sair nem pra ir ao banheiro.  Outras vezes, os oceanos falam de música, de arte, de café. Nesse caso, o mar vira azeite, o barco quase não mexe e parece que nem saímos dos canais chilenos.</p>
<p class="p1"><span id="more-4935"></span></p>
<p>Quando éramos menores, nós três (e a Gigi, nossa amiga) forrávamos a sola da bota com papel toalha, e aproveitávamos o balanço pra escorregar pelo compensado naval do salão. Se caíamos no buraco da cozinha tinha chororô de 5 minutos até escorregarmos outra vez. Meu calcanhar de Aquiles era (e ainda é) sentir aquele cheiro de diesel sufocante, amargo e opaco vindo do aquecedor da cozinha. Tanto medo tinha do cheiro que não saía na cabine de comando nem pra domir. Não era boba: lá dava pra ver o mar e conversar com quem fazia o turno da vez.</p>
<p>No estreito de Drake se intensifica a rigidez, o agrupamento e a ordenação fixa dentro do barco. Como moléculas de água no estado sólido, não saímos muito do lugar. Quando as ondas crescem, quebramos o grupo em pedaços e não nos vemos por dias. Já se o mar acalma, ficamos fisicamente conectados no sofá da cabine de comando.</p>
<p>Raramente navegamos sozinhos. Petréis e albatrozes nos acompanham, voando sem parar. Uns com outros, fazemos piadas, contamos histórias, trocamos dicas anti-enjoo [&#8220;olha o horizonte&#8221;, &#8220;come maçã&#8221;, &#8220;toma remédio&#8221;, &#8220;deita&#8221;, &#8220;põe pra fora&#8221; (é o que mais resolve)] e apostamos quem vê o primeiro <i>iceberg</i>.</p>
<p>De certa forma, o Drake ajudou a preservar a Antártica: se fosse fácil chegar, não teria levado tanto tempo para se confirmar a existência de um &#8220;Anti-Ártico&#8221; no Sul da Terra. Não seria tão intocado, desconhecido.</p>
<p>Também não seria tamanha a alegria de estar lá: Destinos alcançados sem barreiras têm graça efêmera.</p>
<p>Lá está o <i>iceberg</i>. Primeiro sinal de uma enxurrada de maravilhas que vêm à tona: pinguins acompanhando o veleiro, focas de <i>weddel</i> em pedaços de gelo, montanhas (Terra!), e às vezes, baleias. Ocupamos toda a área disponível a bordo: tem festa na cozinha, correria no convés, penteado de cabos no salão, concerto de equipamento na garagem, e planejamentos de toda ordem em todo o lugar. Somos livres pelo espaço.</p>
<p>A presença do primeiro iceberg é o ponto que separa o estado mais rígido do mais volátil da viagem. E, por isso, essa mudança é tão sentida. Precisamos provar a dor pra, nas coisas belas, ver o sublime.</p>
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		<title>Teletransporte</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Mar 2016 11:41:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Antártica]]></category>
		<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>

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		<description><![CDATA[- Marininha Com cinco anos, meu mundo se consistia, basicamente, no caminho de casa para a escola, e na barrenta e sinuosa estrada que nos levava até Paraty. Fora isso, conhecia algumas grandes e tumultuosas &#8220;cápsulas do tempo&#8221;. Basicamente, você entrava, se sentava comodamente por algumas horas e, num piscar de olhos, as portas se [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">- Marininha</p>
<p>Com cinco anos, meu mundo se consistia, basicamente, no caminho de casa para a escola, e na barrenta e sinuosa estrada que nos levava até Paraty. Fora isso, conhecia algumas grandes e tumultuosas &#8220;cápsulas do tempo&#8221;. Basicamente, você entrava, se sentava comodamente por algumas horas e, num piscar de olhos, as portas se abriam. Um lugar que você nunca tinha visto antes aparecia logo em baixo dos seus pés, ao descer a escadinha do avião.</p>
<p><span id="more-4912"></span></p>
<p>Também me lembro de ir à prainha de Jurumirim. Algumas vezes para esperar meu pai chegar de viagem, outras, para me despedir dele e assistir o veleiro desaparecer no horizonte entre as numerosas baías de Paraty. No momento em que o veleiro partia, iniciava-se a contagem regressiva para o dia da volta.</p>
<p>Foi naquele ano de 2005 que comecei a ouvir meus pais falando em nos levar para conhecer o tal lugar para onde todos os anos nosso barco ia, ao atravessar aquele mesmo horizonte. Nossos pais costumavam nos contar incríveis histórias sobre a sobre a Antártica, e pensar que eu e minhas poderíamos ser protagonistas de alguma delas nos deixou absolutamente facinadas. Foi mais ou menos assim, entre uma conversa e outra, que nossa primeira viagem à Antártica passou de uma ideia maluca para um plano em execução.</p>
<p>Depois das onipresentes complicações burocráticas, listas encadernadas de supermercado e outros esforços, nossa primeira ida à Antártica se concretizou. Durante o caminho, entre uns enjoos e outros, brincávamos de escorregar na popa do barco, fazendo um bom uso do balanço agitado que as ondas do Drake causavam. Segurávamos o leme do veleiro para nos sentir em controle da tripulação (mal sabíamos da existência do piloto automático), e sentávamos na proa na tentativa de achar o primeiro iceberg.</p>
<p>A passagem pelo Estreito de Drake, divisor de águas entre o oceano Atlântico e Pacífico, nos fez perceber que o caminho também faz parte da viagem. Diferentemente de no avião, ao entrarmos no barco, sentimos na pele cada etapa da viagem, percebemos cada litro de água por que passamos, vivemos riscos, superamos desafios, e aprendemos que só sendo uma equipe é possível chegar.</p>
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		<title>Encalhamos por querer</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Feb 2016 14:17:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tamara Klink]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Antártica]]></category>
		<category><![CDATA[Diário de bordo]]></category>
		<category><![CDATA[Antartica]]></category>
		<category><![CDATA[Baia Marguerite]]></category>
		<category><![CDATA[Encalhe]]></category>
		<category><![CDATA[Paratii2]]></category>

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		<description><![CDATA[- Tamara Eu não podia acreditar. Perguntei pra minha mãe se era verdade que estávamos encalhados. Ela fez que sim. O fundo era tāo raso que eu podia andar com água nas canelas. Estávamos em 7 no veleiro: minha família, Rogério e Flávio. Meu pai, tenso, não pensava nas providências a tomar, tomava-las. Iríamos sair [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="p1" style="text-align: right;">- Tamara</p>
<p class="p1"><span class="s1">Eu não podia acreditar. Perguntei pra minha mãe se era verdade que estávamos encalhados. Ela fez que sim. O fundo era tāo raso que eu podia andar com água nas canelas. Estávamos em 7 no veleiro: minha família, Rogério e Flávio. Meu pai, tenso, não pensava nas providências a tomar, tomava-las. Iríamos sair dali, mesmo que os mastros flexíveis tocassem a água. Tocavam. Não entendi o que ia se passava, mas senti que quanto mais longe ficasse do foco de resolução de conflitos, melhor.</span><span id="more-4888"></span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Engraçada essa reação. Já não era a primeira vez que fazíamos essa viagem, nem a primeira vez que encalhamos em algum lugar perigoso. Ainda assim, não achei que estivesse a meu alcance a capacidade de contribuir com a solução do problema. Nossos pais nos levaram pro mundo dos barcos com sólidos rastros de experiências e pesadas bagagens de noção. Eu, tão pequena, tão novata nessa condição de existir, subestimei a mim.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Ao estarmos excluídos das dinâmicas habituais do mundo globalizado, mesmo que por um breve período, me esqueci do que inovações tecnológicas recentes trouxeram pra gente. Meu pai começou a navegar num tempo onde o sol e estrelas julgavam o direito dele em saber onde estava. 20 minutos de cálculos, consultas de fórmulas e tabelas, pra ter alguma vaga ideia sobre seu avanço ou retrocesso no mar. 25 anos depois, sua filha de 8 anos era capaz de bater os olhos em uma tela colorida e <i>PIMBA! </i> </span><span class="s2">68°11&#8217;S, 067°00&#8217;W , Baía Marguerite.</span></p>
<p class="p3"><span class="s1">Não são precisos livros ou especialistas para aprender nós ou regras de balisamento. Aulas virtuais, vídeos no youtube, manuais em pdf; a ausência de um professor não é limitadora. Sobre o presente, passado e futuro metereológico, a bola de cristal vêm por email em nosso telefone via satélite. Enfim, temos hoje a estranha sensação de poder aprender a navegar sem nunca ter entrado num barco. Claro que essa sensação é ainda irreal, porque infinitas são as variáveis que tornam, todo dia, nosso saber sobre esse meio de transporte em xeque. Porém, ela nos oferece a vantagem de ir atrás do que nos interessa com mais independência de acasos ou terceiros.</span></p>
<p class="p3"><span class="s1">O casco de alumínio ainda oscilava sobre o fundo. Fazia tanto barulho que era melhor correr o risco e ficar do lado de fora, tomando cuidado pra não atrapalhar os procedimentos de desencalhe. Observei o Flávio, no bote, empurrando o casco, meu pai levantando o leme pra não bater, e forçando a movimentação das 100 toneladas.</span></p>
<p class="p3"><span class="s1">Percebi que, num tempo onde a informação parece tão acessível o tempo todo, é fácil nos distrairmos e deixarmos pra depois coisas que queremos aprender. É fácil fugir de conflitos, e perder oportunidades com medo de se ver ignorante na frente dos mais experientes. Uma vantagem, acredito, é a certeza de que o mundo caminha para a simplicidade. Porém, por confiar nela, sonhamos com mais chegadas do que damos passos.</span></p>
<p class="p3"><span class="s1">Aquela pedra não estava cartografada. Talvez um dos últimos redutos de terra desconhecida no mundo. Marcamo-la na carta náutica com um X. Na minha mente, também fiz uma marcação: no ponto mais raso em que já pousei no mar, nasceu minha ânsia por profundidade. Perdi o medo do não saber, desde que não deixasse o aprender pra outra hora, desde que desse valor à experiência, sem subestimar a ausência dela &#8211; a maré subiu, saímos.</span></p>
<p class="p3"><a href="http://www.irmasklink.com.br/categorias/diario-de-bordo/" class="submit submitTheme" title="VEJA OUTRAS EXPERIÊNCIAS">VEJA OUTRAS EXPERIÊNCIAS</a></p>
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