Antártica

XX (4)

Desencontro

-Tamara

Aquele gesto fatal decerto melhor seria se mantido omisso, não fosse a indelicadeza gratuita em declarar, por intermédio de gerados, certas conquistas pessoais post mortem. Devido ao desejo de ambas as partes em manter supostas afinidades, parece-me custoso expor à luz da pena a semente do desconforto — embebido em conveniências. Faz-se necessária a ressalva de que nada tenho contra o intermediador de tal notícia, o qual, ademais, parece-me gente de bem. Dessa forma, proponho-me a discorrer de tal modo que eu mesma possa digerir a causa de tal rodeio memorialístico.

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na verdade

Na verdade,

- Tamara

O sonho é um monte de neve guardado num potinho. Na minha jornada pela superfície da Terra, colecionei suspiros, vi derreterem-se tesouros e reguei a fé que eu mesma assassinei. Minhas utopias materializadas tornaram-se desilusões banais. E me perguntei se era assim que as estrelas morriam, se fazendo visíveis. Mas não. Algumas estrelas expostas na areia da praia podiam  viver, se devolvidas ao mar a tempo.

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Não queria ser criança

- Tamara

Era um auditório de uns 70 lugares, cheio de seres humanos com uma mão e meia de anos. Falavam, no palco, três meninas de mais ou menos duas décadas sobre experiências vividas há uma e um livro escrito há meia.

Uma das leitoras não entendia como as 3 palestrantes e as 3 crianças do livro podiam ser as mesmas pessoas. Não eram. Sem saber disso, declarou “queria que vocês fossem crianças”.

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Sublimação intransponível

- Tamara

Pra onde o Pacífico e o Atlântico pelo Sul conversam, damos o nome de Drake. O encontro, no veleiro, é medido em dias: 7, na vela, ou 3, no motor.

Prefiro chamar de conversa do que de discussão. Às vezes, os dois oceanos brigam como pais e filhos falando de política. São dias de cama e jejum, sem sair nem pra ir ao banheiro.  Outras vezes, os oceanos falam de música, de arte, de café. Nesse caso, o mar vira azeite, o barco quase não mexe e parece que nem saímos dos canais chilenos.

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marininha

Teletransporte

- Marininha

Com cinco anos, meu mundo se consistia, basicamente, no caminho de casa para a escola, e na barrenta e sinuosa estrada que nos levava até Paraty. Fora isso, conhecia algumas grandes e tumultuosas “cápsulas do tempo”. Basicamente, você entrava, se sentava comodamente por algumas horas e, num piscar de olhos, as portas se abriam. Um lugar que você nunca tinha visto antes aparecia logo em baixo dos seus pés, ao descer a escadinha do avião.

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Encalhamos por querer

- Tamara

Eu não podia acreditar. Perguntei pra minha mãe se era verdade que estávamos encalhados. Ela fez que sim. O fundo era tāo raso que eu podia andar com água nas canelas. Estávamos em 7 no veleiro: minha família, Rogério e Flávio. Meu pai, tenso, não pensava nas providências a tomar, tomava-las. Iríamos sair dali, mesmo que os mastros flexíveis tocassem a água. Tocavam. Não entendi o que ia se passava, mas senti que quanto mais longe ficasse do foco de resolução de conflitos, melhor.

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